Thor: Ragnarok abraça o humor esquisito do diretor Taika Waititi de modo sem-vergonha e divertido

Ao trazer para o cinema um Thor engraçado, muito diferente da figura mais séria e imponente dos quadrinhos, a Marvel Studios adaptou a fantasia de Asgard para o universo mais leve e tecnológico de seus filmes e enfureceu uma legião de fãs do Deus do Trovão. Thor e Thor: O Mundo Sombrio não só acabaram muito longe da lista de melhores filmes solo do estúdio, como também criaram uma percepção geral de que Thor era o menos resolvido dos heróis da Casa das Ideias no cinema.

Aí veio a escolha do diretor neozelandês Taika Waititi, conhecido por seus filmes de humor peculiar, para dirigir justamente a história da queda e destruição dos deuses. E aí veio também a incredulidade de “ok, toda aquela parada de tensão e morte do Ragnarok vai ser uma comédia”? A Marvel está tocando de vez o foda-se pro Thor..?

Sim, de fato, Thor: Ragnarok é um grande e semvergonhamente divertido foda-se.

Mas que, acredite, é um longa que se destaca e se impõe em meio à profusão de filmes de super-heróis justamente por não se levar a sério. Um filme que oferece não apenas um entretenimento de qualidade, como também uma boa dose de risadas, além de algumas das mais interessantes cenas de ação da Marvel.

Ah, mas então é mais um filme engraçado e cheio de piadinhas da Marvel? É, mas nem tanto. (Honestamente, alguém ainda acredita que o estúdio vai sair tão cedo da fórmula que lhe rende muitos dinheiros?) O que difere Thor: Ragnarok dos demais filmes do estúdio é que os elementos de comédia não são os mesmos. O humor do filme se apoia muito menos em ‘a hora da piada’, e mais na vibe irônica e auto-depreciativa característica de Taika Waititi. Para entender melhor o tipo de humor do diretor, assista O que fazemos nas sombras, o melhor e mais inesperado filme de vampiros já feito (tem na Netflix.)

Em termos de história, ao contrário do que poderia se supor a partir da visão muito louca do Thor em A era de Ultron, o filme tem pouquíssimas relações com a busca pelas Joias do Infinito. O roteiro se foca muito mais nos eventos desencadeados a partir de Thor: O mundo Sombrio e suas consequências em Asgard, ainda que não seja necessário ter assistido aos filmes anteriores do Deus do Trovão para aproveitar o longa.

Dessa forma, o filme consegue explorar melhor as relações entre Thor (Chris Hemsworth), Loki (Tom Hiddleston) e Odin (Anthony Hopkins), o que rende também momentos genuinamente dramáticos e bonitos. Aliás, cabe destacar que Loki, que sempre roubava o filme, aqui tem uma participação bem mais contida e que foca muito mais na figura do irmão desajustado do que na do vilão/anti-herói propriamente dito, mas que acaba sendo igualmente interessante.

A vilã Hela, por sua vez, é uma figura cuja imponência vem muito da maravilhosidade que é Cate Blanchett. Claramente divertindo-se no papel, a atriz brinca com gestos, expressões e entonações que tornam a Deusa da Morte irresistível e arrebatadora. No entanto, a vilã infelizmente não consegue atingir o raro desenvolvimento que até agora pouquíssimos antagonistas da Marvel, como Ego e Abutre tiveram. Fica assim a sensação de que o filme subaproveita um pouco uma atriz que tinha muito potencial para se tornar a melhor vilã desse universo.

Mas se fui para o cinema esperando amar a Hela, foi pela Valquíria que voltei apaixonada. Vivida por Tessa Thompson, a lendária guerreira caída rouba absolutamente todas as cenas que aparece. Ela é não apenas carismática e divertida, mas também evidencia que a Marvel tem heroínas maravilhosas e que já passou da hora do estúdio de criar vergonha na cara e dar a elas o espaço merecido nas telonas. Eu, particularmente já quero um filme da Valquíria! Aliás,  quero sair para beber com ela também…

Ao lado de Thor, Loki e Valquíria, Hulk (Mark Ruffalo) completa um “time” formado quase como uma espécie de paródia dos Vingadores. A tão esperada participação do Gigante Esmeralda aproveita alguns dos elementos de Planeta Hulk, trazendo alguns elementos e personagens da icônica história. E ainda que Hulk sirva em muitos momentos como o monstro gigante que vai bater no monstro gigante, o filme não só brinca com referências a outros filmes do MCU, como também aprofunda alguns elementos da mitologia do personagem nos cinemas, enriquecendo a dinâmica Banner/Hulk e mostrando que o planeta Sakaar trouxe ao gigante verde não só a habilidade de falar.

Ah, Sakaar… esse lixão no cu do universo que traz para Thor: Ragnarok não apenas Valquíria e Hulk, mas também uma das mais acertadas escalações de elenco do Universo Cinematográfico da Marvel: Jeff Goldblum como Grão Mestre. Com direito a comentários sobre orgias, um visual coloridíssimo e muito carisma, ele já é o tipo de personagem que a gente deseja ver em todos os filmes.

Além dessa miríade de personagens interessantes, o filme também acerta nas referências visuais do trabalho de Jack Kirby, na vibe psicodélica da trilha sonora e em cenas de ação memoráveis. Com destaque para a sequência de abertura que, além de bem filmada, prova que se tudo fica melhor ao som de Immigrant Song do Led Zeppelin (ainda mais quando  a música tem total relação com a temática do filme).

Ainda que tenha um clímax não muito bom e que caia em certas limitação da dita cuja “Fórmula Marvel”, Thor: Ragnarok prova que uma das saídas para evitar a saturação dos filmes do estúdio está justamente no estabelecimento de identidades criativas próprias. Se por muito tempo era difícil ver a marca do diretor nos filmes da Marvel, o trabalho de James Gunn começou a mudar esse jogo com Guardiões da Galáxia e presença de Taika Waititi deixou isso ainda mais evidente em Thor: Ragnarok.

E dane-se se for comédia, drama ou qualquer outra coisa. O que define os filmes de super-heróis não é sua seriedade ou idiotice, mas a sua qualidade. Se for bom e criativo, pode ser sem-vergonha e esquisito que não tem problema.

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