Um filme de Peter Parker. É assim, logo em seus primeiros momentos, ainda com os arranjos do tema musical clássico do herói ecoando em nossa mente, que Homem-Aranha: De Volta ao Lar se define.

Não é exatamente um filme de origem, porque já sabemos essa história de cor; não é um filme de herói com “raio azul” e ameaça global, porque não é nisso que o Homem-Aranha costuma atuar. É um filme sobre um adolescente, cujos superpoderes são mais uma das preocupações e dilemas de sua idade. Sobre um garoto que gosta da menina popular do colégio, que monta legos de Star Wars e que come no podrão da esquina, mas que também quer combater o crime, fazer o que acredita ser o certo e se provar como herói.

E é aí que está a grande beleza do filme que marca a parceria entre a Sony e a Marvel Studios. Um acerto que se faz ainda mais evidente na escolha de Tom Holland para o papel principal (sim, ele é o melhor Peter Parker do cinema), porque ele é realmente um adolescente, e isso faz muita diferença na construção do filme como um todo.

Ainda que existam muitos méritos nos filmes anteriores do cabeça de teia, sobretudo em Homem-Aranha 2, é nesse Homem-Aranha: De Volta ao Lar que a essência do moleque divertido e inspirador que representou toda uma geração de nerds desajustados é finalmente capturada em sua plenitude.

Mas esta não é a mesma geração que acompanhou os primeiros passos do herói criado  por Stan Lee e Steve Ditko nos anos 60, e o filme sabe deixar isso claro. Este Peter Parker não apenas está inserido em um mundo de smartphones e youtube, como também convive em um meio onde o bullying não é praticado só pelo cara fortão dos esportes e a definição de “garota mais popular da escola” já não é mais a mesma. Um mundo onde “surpresa! Nem todo mundo é branco”.

Entre o elenco que acompanha a vida de Peter Parker na escola, o destaque fica com Ned (Jacob Batalon) – claramente inspirado em Ganke, amigo de Miles Morales, o Homem-Aranha do universo Ultimate -, que atua como um apoio para Peter não só nas questões acerca da convivência social e da tentativa de se encaixar na escola, como também nas ameaças mais graves que pairam sobre o cabeça de teia.

Ameaças essas centradas em Adrian Toomes, o Abutre, brilhantemente interpretado por Michael Keaton. Uma figura que além de possuir um visual incrível, já surge como um dos vilões melhor desenvolvidos dentro de todo o Universo Cinematográfico da Marvel (MCU) tanto em termos de motivações e objetivos, quanto de verossimilhança na trama e ligação com os outros filmes do estúdio.

O elo com as demais produções do MCU é acentuada com a presença de Tony Stark (Robert Downey Jr.), figura importante para a criação e o desenvolvimento tanto do Abutre, quanto do próprio Peter Parker dentro desse filme. Mas ainda que o Homem de Ferro tenha grande relevância dentro da trama, sua presença em tela é bem pequena e não rouba em nenhum momento o protagonismo do Homem-Aranha. (Sim, fãs temerosos como eu, tem praticamente mais Tony Stark nos trailers do que no filme).

O marketing em torno da figura de Robert Downey Jr. inclusive, é mais um elemento de todo o jogo de negócios entre a Sony e Marvel, cujo futuro ainda é incerto. Mas ao menos do ponto de vista criativo, é inegável que o primeiro fruto dessa guarda compartilhada de um dos heróis mais populares de todos os tempos começou do jeito certo.

O que não quer dizer que o filme não tenha seus deslizes.  Com uma direção bastante apagada de Jon Watts, o longa deixa um pouco a desejar nas cenas de ação, e ao final do filme fica claro que Homem-Aranha: De Volta ao Lar não tem uma cena realmente memóravel, como costuma ocorrer na maioria dos filmes de super-heróis.

Além disso, é um pouco incômodo o modo como as personagens femininas são pouco desenvolvidas ao longo filme. Marisa Tomei é sim uma Tia May diferente – e o filme sabe brincar com isso – e Liz (Laura Harrier) cumpre o papel de interesse amoroso do herói, mas as coisas não vão muito além disso. Já Michelle, interpretada por Zendaya, mostra ter um potencial a ser explorado, e  ainda que tenha uma cena importante mal executada, é provavelmente uma das promessas para os próximos filmes do teioso. Mas por enquanto, só promessa…

Apesar do filme falhar nesses aspectos, Homem-Aranha: De Volta ao Lar não deixa de ser uma das melhores representações de um herói tão icônico justamente por apostar naquilo que seus antecessores não fizeram, e explorar um Peter Parker adolescente; desajustado, mas divertido; introvertido na escola, mas corajoso sob sua máscara.

Uma figura que sabe ser o amigão da vizinhança que recupera bicicletas roubadas e salva gatinhos, mas que também sonha em fazer mais. Um herói que consegue parar um ônibus com as mãos, mas que se preocupa com o teste da escola. Alguém que sente o peso de suas responsabilidades, que falha e que sofre, mas que finalmente está em casa.

Ps. São duas cenas pós-créditos. Fique até a última, vale a pena!

Um comentário em “Homem-Aranha: De Volta ao Lar – Enfim, o amigão da vizinhança

  1. Eu amo esse filme que você compartilha na sua resenha. Adorei esta história, por que além do bom roteiro, realmente teve um elenco decente, elemento que nem todos os filmes deste gênero tem. Amei Tom Holland desde que eu vi o trailer Homem Aranha. Sempre demonstrou por que é considerado um grande ator. Fez uma grande química com todo o elenco, vai além dos seus limites e se entrego ao personagem. Sendo sincera eu acho que a sua atuação é extraordinária. Além disso acho que é um dos melhores filmes de Marvel, tem uma boa história, atuações maravilhosas e um bom roteiro. Já estou esperando o seu próximo filme, seguro será um êxito.

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