Doctor Who 10×11/12: Sobre lágrimas, cybermen e esperança

“Um dia eu voltarei. Sim, eu voltarei. Até lá, não deve haver arrependimentos, nem lágrimas, nem ansiedades. Apenas vá em frente em todas as suas crenças e prove-me que não estou enganado na minha”. – Primeiro Doutor

Nas cinzas do campo de batalha, sob um céu sem estrelas, ciclos se fecham em meio ao fogo dos cybermen e as lágrimas da despedida. Entre perdas e promessas que não podem ser cumpridas, o Décimo Segundo Doutor segue relutante – mas inevitavelmente – para o fim de sua jornada, enquanto Doctor Who entrega um memorável capítulo cheio de homenagens e emoção.

Depois de uma temporada com um tom mais aventuresco e despretensioso, a série apresenta em seus dois episódios finais uma história marcada pelo horror e pela nostalgia. Com roteiro de Steven Moffat e direção de Rachel Talalay, World Enough and Time e The Doctor Falls já entram para a história de Doctor Who como um dos arcos mais devastadores e viscerais de toda a série.

A primeira parte, ligeiramente melhor resolvida, mexe com os conceitos e as armadilhas do tempo para mergulhar em um episódio sombrio e desesperador, que traz não só a volta do Mestre (John Simm), como também a gênese de um dos vilões mais clássicos e icônicos da série, os Cybermen Mondasianos. Tudo isso enquanto despedaça nossos corações diante do destino de uma adorável e cativante companion.

Já o episódio final, encerra o que foi construído emWorld Enough and Time de um modo mais esperançoso, mas igualmente dolorido em suas despedidas, quedas e sacrifícios. Que com atuações brilhantes de todo o elenco principal eleva não apenas a qualidade técnica da série, como também expande os conceitos de humanidade e de bondade nesse mundo de alienígenas e naves gigantes, e de amizades e amores que cruzam o tempo e o espaço.

Os companions

“Onde há lágrimas, há esperança.” – Doutor e Bill

Nesse contexto de finitude, o papel de Bill, a fascinante companion brilhantemente interpretada por Pearl Mackie, é central para o desenvolvimento deste fim de temporada. Toda a sua jornada ao longo de World Enough and Time é, sem sombra de dúvida, um dos momentos mais dolorosos da história de Doctor Who. O fato de a alegre e grata jovem confessar seus medos e pedir proteção ao Doutor só torna mais devastador o modo como ela vai perdendo  seu corpo e sua mente “peça por peça” enquanto espera sua volta.

Em The Doctor Falls, o destaque absoluto dado a personagem fica evidente no excelente trabalho de direção de Rachel Talalay, sobretudo na construção das cenas em que Bill não consegue enxergar a si mesma como um cyberman.

O fim mais doce dado a personagem, por sua vez, pode parecer fruto da dificuldade de Moffat em matar seus personagens de modo definitivo, mas vai muito além. Ao contrário do que aconteceu com Clara na nona temporada, o “retorno” de Bill tem uma justificativa desenvolvida de modo consistente, numa ligação muito interessante com Heather (Stephanie Hyam), apresentada em The Pilot, e não com alguém aleatório na vida da personagem.

Além disso, no subtexto do episódio existe uma simbologia muito grande em associar alguém que notadamente sofreu preconceito por conta de etnia e sexualidade a uma figura que está presa em um invólucro que desperta desconfiança e medo aos que estão ao seu redor. E da mesma forma, existe uma beleza incrível em transformá-la em uma forma de vida que é livre e fluida para estar com quem decidiu amar.

“Você está errado, você sabe. Eu nunca serei capaz de encontrar as palavras”. – Nardole

E assim como Bill, Nardole também teve uma importância crescente ao longo da temporada e sobretudo, nos capítulos finais. O personagem interpretado pelo comediante Matt Lucas, diferente do arquétipo geralmente atribuído ao papel de alívio cômico, mostrou que é possível ser engraçado e meio bobo e ao mesmo tempo inteligente e “secretamente badass”.

Sua presença na série resgatou o espírito mais leve e infantil da gênese de Doctor Who, sem perder o aspecto dramático, evidenciado principalmente em sua despedida em The Doctor Falls.

Os Mestres

“Adorei ser você. A cada segundo. Ah, o jeito que você queimou como um sol, como um mundo todo gritando em chamas. Eu me lembro desse sentimento. E eu sempre vou lembrar. E eu sempre sentirei falta disso”. – Missy

Por mais que o anúncio da BBC sobre a volta de John Simm tenha diminuído um pouco o impacto do retorno de seu personagem, é inegável que a interação entre Mestre e Missy (Michelle Gomez) tenha sido um dos pontos altos não só dessa temporada como de toda a era de Moffat  como showrunner.  A interação entre as duas versões do maior nêmesis do Doutor não apenas aprofunda a mitologia e a personalidade de um personagem tão complexo, como torna ainda mais rica a dinâmica entre velhos amigos que tomaram rumos tão distintos ao longo de sua existência.

O Mestre surge ainda mais psicopata com toda a vilania que um bom cavanhaque adiciona – visual que, aliás, é uma homenagem a Roger Delgado, o primeiro Mestre da série clássica. E traz consigo elementos essenciais na história do personagem, como a sua habilidade para os disfarces e a referência ao ministro Saxon.

Mas é Michelle Gomez que encerra sua participação na série com uma magistral interpretação de uma personagem tão dúbia e complexa. Além disso, em The Doctor Falls toda a questão da troca de gênero na regeneração rende não só engraçados momentos de tensão sexual, como também levanta questões acerca da força, e principalmente, da empatia que as mulheres carregam.

Tudo isso sem mencionar a tristeza de perceber que Missy “morre” sem que o Doutor saiba que o arrependimento dela  era real e que suas palavras de alguma forma atingiram aquela amiga com quem um dia sonhou conhecer todas as estrelas.

Os Doutores

“Eu faço o que faço porque é certo, porque é decente. E acima de tudo, gentil. É apenas isso … Apenas gentil. (…) Quem eu sou é onde eu estou de pé. E onde eu estou é onde eu caio. “

A desilusão acerca da redenção da Missy e a perda diante da conversão de Bill em cyberman contribuem para acentuar o sentimento de solidão e de cansaço que devem acompanhar os últimos momentos do Décimo Segundo Doutor.

Do velho ranzinza da oitava temporada, ao tiozão descolado da nona, passando pela perda da Clara e da River e pelos dilemas existenciais do magistral Heaven Sent, Peter Capaldi (de maneira impecável) entregou  desde a primeira vez em que seus olhos – emoldurados por icônicas sobrancelhas – surgiram na série, um Doutor marcado por questionamentos e nuances.

E se nesta décima temporada, Doctor Who enfim encontrou o equilíbrio entre as diferentes características que permeiam esse personagem tão complexo, os últimos episódios retomam o grande dilema de ser um homem bom e revelam um Doutor que finalmente encontra o seu lugar, lutando pelo que “é certo, decente, e acima de tudo gentil”. Uma figura que ao encontrar seu propósito, também perde todos aqueles que lhe são caros e que reluta em mudar, porque está cansado de seguir adiante enquanto os outros ficam para trás.

Nessa relutância em seguir em frente, o Décimo Segundo evoca linhas de suas regenerações passadas enquanto teimosamente tenta segurar sua regeneração. E aí é a Tardis que entende que aquele Doutor velho e cansado, que já viveu e lutou muito mais do que deveria, precisa redescobrir o sentido e a essência da mudança e de si mesmo, e que o que este Doutor mais precisa nesse momento é do Doutor, “o original, por assim dizer”…

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