O jornalista e escritor Eric Nepomuceno é responsável pela tradução de nove livros de Gabriel García Márquez para o português, incluindo o clássico romance Cem anos de solidão, cujo lançamento completa 50 anos.

Amigo pessoal de Gabo, Nepomuceno – que também traduziu autores como Julio Cortázar e Eduardo Galeano – acredita que a obra do escritor colombiano foi fundamental para mostrar ao mundo de modo mágico e fantástico a memória coletiva da América Latina.

Conversei com Nepomuceno em 2014, poucos meses depois da morte de García Márquez, sobre a importância do escritor e sobre os desafios da tradução de sua obra. Confira a íntegra (inédita) da entrevista.

Como você conheceu Gabriel García Márquez  e como vocês se relacionavam durante a tradução e fora dela? 

Eric: Conheci García Márquez em julho de 1978, em Havana. Em setembro de 1979 mudei de Madri para o México, nos reencontramos e não nos desgrudamos mais. Mesmo depois de eu ter voltado para o Brasil, em 1983, continuamos nos vendo periodicamente. E nos falávamos por telefone a cada dois, três meses.
Nunca falamos de tradução. Só falávamos do livro depois de traduzidos. Ele às vezes perguntava se eu tinha enfrentado alguma dificuldade significativa, às vezes perguntava como eu tinha traduzido determinado trecho. Mas isso, depois de eu ter entregue a tradução. Consultei-o apenas uma única vez, em ‘Doze contos peregrinos’, e ele não gostou muito. Dizia que bastava os outros tradutores chateando com dúvidas. Que eu, por sermos amigos, não tinha esse direito. Entendi, e pronto: nunca mais.
Como nos relacionávamos? Fomos amigos. Muito amigos. Até o fim. Minha mulher era amiga dele, somos agora amigos da Mercedes e dos meninos que já não são meninos, o Rodrigo e o Gonzalo. Felipe, meu filho, que é todo um senhor, também guarda muitas memórias do García Márquez. Muitas. É o que posso dizer: García Márquez tinha aquilo que chamava de ‘minha máfia particular’, dos amigos muito amigos. Aqui do Brasil, éramos dois mafiosos, o cineasta Ruy Guerra e eu.

Qual a principal dificuldade em traduzir suas obras?

Eric: A mesma de qualquer tradução: muito mais que encontrar as palavras certas, encontrar o tom exato. O tom do texto, sua respiração, sua melodia. A arquitetura da escrita do García Márquez é extremamente sofisticada. Parece simples, e esta é uma de suas marcas: para parecer simples é muito refinada. A solução, para mim, nos oito ou nove livros dele que traduzi, era me recordar dele na mesa da cozinha, contando histórias. O tom da voz, as palavras, o ritmo. O resto, a memória resolve. Ou o dicionário.

Para você, o que torna a escrita e a figura de Garcia Marquez tão marcantes?

Eric: A entrega total e irremediável à história, aos personagens, à narrativa. Ele escrevia com paixão, quase com volúpia. Não há uma só linha, no que ele escreveu, que não esteja impregnada de vida. Isso, para mim, ressalta muito mais do que técnicas narrativas, que ele dominava completamente. Se fosse apenas uma questão técnica, ele seria um redator formidável. Foi um escritor formidável porque acreditava no que escrevia.

Gabo sempre dizia que tentava escrever com o tom que sua vó lhe contava histórias. Como manter esse tom na tradução?

Eric: Não conheci, é claro, a avó dele. Mas ele, conheci muito bem. Então, como disse, recordava sua voz na mesa da cozinha, contando histórias e memórias. Esse é o tom que ele herdou da avó. E tratei de ser absolutamente fiel a essa herança. Às vezes, enquanto traduzia, eu tomava o mesmo vinho branco daquelas conversas infinitas. Ajudava a recordar a voz, as pausas, a melodia da sua fala. Não é uma explicação muito técnica ou muito profissional, mas é verdadeira.

Quantas obras de García Marquez você traduziu? Qual foi a mais difícil?

Eric: Vamos lá: A aventura de Miguel Littin clandestino no Chile, Doze contos peregrinos, Como contar um conto (dois volumes), Notícia de um sequestro, Viver para contar, Cem anos de solidão, Memória de minhas putas tristes, Eu não vim fazer um discurso. Se não esqueci algum, nove. Cada um com sua dificuldade, com sua responsabilidade. Se for citar algum, me arrependo em seguida…

E de todas as obras dele, qual a que mais te marcou?

Eric: De novo, impossível. Talvez Ninguém escreve ao coronel, uma novela invulnerável, perfeita. Mas menciono esse livro e já me lembro de outro, Memória de minhas putas tristes, de uma delicadeza e uma melancolia lancinantes. E Cem anos…, e o conto O rastro do seu sangue na neve, claro… enfim, tudo que li dele me marcou fundo, de uma ou de outra forma.

Quando foi a última vez que você viu e falou com ele?

Eric: Em fevereiro [de 2014], no México. Mas muito rapidamente. Ele estava se submetendo a uma bateria de exames médicos. Achei que era rotina. Me enganei. Antes, em novembro de 2012, passamos, minha mulher e eu, uma semana no México. E nessa semana estivemos com o Gabo e a Mercedes quatro vezes, longa, longamente. Por telefone, deixamos de nos falar há alguns anos, 2008, 2007, não lembro direito. Mas continuei telefonando sempre, e falando com a Mercedes.

Qual a importância de sua obra no sentido de revelar a cultura latino-americana para o mundo?

Eric: Não só a cultura, mas a própria América Latina. Junto a outros escritores de alto calibre, ele acabou surgindo num determinado período em que muitos olhos do mundo estavam dirigidos, com curiosidade e ignorância (no sentido de desconhecimento) para as nossas comarcas, graças principalmente à imagem um tanto romântica da recém-instalada Revolução Cubana. Aos olhos estrangeiros, principalmente europeus, o cenário descrito por ele parecia mágico, absurdo, fascinante. E, no entanto, tudo que ele fazia era contar a memória coletiva da América, as lendas que se tornavam realidade… Uma importância capital, essencial, a dele.

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