Mulheres inspiradoras da ficção e da vida real que descobrem a cada dia a sua força e a sua maneira de lutar pelo que acreditam. É sobre elas, e para todas as mulheres que com elas se identificam, que Kaol Porfírio criou a série de ilustrações Fight like a Girl.

Ilustradora, gamer e desenvolvedora de jogos, Carolina Porfírio (Kaol porque alguém não falava seu nome direito), já produziu materiais de conscientização sobre relacionamentos abusivos e  já fez a convite da ONG Think Olga uma série de ilustrações de feministas famosas – a de Malala Yousafzai chegou inclusive até sua fundação, a Malala Found.

Encontrei Kaol durante uma feira de arte impressa em Florianópolis e conversamos sobre o seu trabalho, sobre o feminismo e sobre o orgulho e a inspiração de lutar como uma garota. Confira a entrevista.

Como começou o seu interesse pelo mundo dos games?

Kaol: Desde pequena eu sempre tive contato com os games. Meus primos tinham um videogame então eu frequentava muito a casa deles, vivia jogando e também frequentava lojas de videogame e locadoras. Então eu sempre joguei videogame, eu adorava, era a principal brincadeira que eu tinha na infância, só que eu não sabia que existia um ramo para fazer jogos. E quando eu descobri isso, por volta de 17 anos, eu decidi seguir essa carreira e comecei fazendo Sistemas de Informação para aprender a programar e depois eu fui fazer um curso de jogos.

Você já sofreu com comportamentos sexistas tanto como gamer quanto como desenvolvedora de jogos?

Kaol: Ultimamente eu passo por bem poucos problemas porque eu estou em uma bolha em que as pessoas trabalham comigo e que estão ali  são bem atualizadas, tem respeito e  fazem questão de ter mulheres no time. Mas quanto a jogos, como gamer a coisa complica, porque você está com o público muitas vezes jovem e que está acostumado a só fazer piadas, e não se importa e não se liga que está sendo ofensivo, então é bem mais complicado. Jogos onlines mesmo acabam sendo bem tóxicos e bem difíceis de lidar.

E como lidar com a questão da hipersexualização de personagens femininas em jogos?

Kaol: Hoje eu me incomodo menos porque eu estou vendo isso diminuir, principalmente porque os jogos indies estão diminuindo bastante esse tipo de personagem. Eu consigo ver que as coisas estão mudando, e se os jogos não acompanharem isso vão ser ignorados. Porque a hipersexualização não é uma necessidade. Não há necessidade nenhuma de hipersexualizar uma mulher, é preguiça mesmo de criar uma personagem ignorando o machismo.

Você acredita que a indústria dos games está se abrindo mais para acolher mulheres?

Kaol: Sim, eu acredito que está mudando, e existe a necessidade de acolher mulheres para poder ter mudanças, senão os jogos vão ficar parados no tempo, e se não houver mudança o público automaticamente vai começar a ignorar esse tipo de trabalho. Então sim, eu acho que tem mais procura, não só de mulheres, mas de minorias. Eu acredito está mudando devagar, mas vai mudar. E tem que mudar.

Como se deu o contato com o feminismo e qual é o papel dele na sua vida hoje?

Kaol: O feminismo me abriu janelas que antes eu não costumava enxergar. Eu não enxergava o quanto ele era importante. Eu sabia que existiam situações problemáticas, mas pensava nelas como algo do passado, como situações que minha mãe ou que minha avó enfrentaram. Mas não achava que era algo que me atingia, e na verdade me atinge o tempo todo. Eu só não enxergava e não queria enxergar. O feminismo é uma construção e foi com ele que eu aprendi a enxergar esse tipo de situações. Entender o feminismo me fez entender outras causas, e me levou bem mais além. Me fez pensar melhor, ter mais empatia com as pessoas. Hoje o feminismo é muito importante para mim, porque realmente me abriu janelas.

Como surgiu o Fight like a Girl?

Kaol: O Fight like a Girl surgiu numa tentativa de homenagear personagens de jogos, filmes, séries, livros, animes… que são bem criadas e bem construídas – e o seus criadores-, porque elas merecem esse tipo de atenção. Minha intenção desde o começo foi de homenagear e lembrar as pessoas de que existem essas personagens e elas são demais, elas são incríveis. E também de dizer que dá para criar personagens boas, belas e fortes.

Como foi perceber o alcance que isso tomou? Você esperava por isso?

Kaol: Eu não esperava nem um pouco. Foi de repente. A primeira ilustração que eu fiz foi da Buffy e eu publiquei a imagem e as pessoas começaram a compartilhar muito rapidamente. Eu fiquei muito emocionada… As pessoas começaram a pedir camisetas, surgiu a Toda Frida e foi uma loucura. Tudo aconteceu muito rápido.

E qual foi a girl que você mais gostou de desenhar?

A Furiosa e a Rey, sem dúvida.

Você retrata personagens que lutam de diferentes maneiras. Como trabalhar essa ideia de que existem muitas formas ser uma mulher e uma personagem forte?

Kaol: Sempre que eu publico a ilustração de uma personagem eu tento mostrar que ela tem um background, eu tento evidenciar alguma coisa importante sobre ela. Por exemplo, a luta da Jessica Jones não é só física, mas é a luta contra um relacionamento abusivo. Eu levo isso em consideração na hora de desenhar e de escrever o texto que acompanha a ilustração, e deixar sempre bem claro que a luta não é só física, não são só socos e chutes. É lutar pelos seus sonhos, lutar pelos seus desejos, lutar pela sua liberdade. As mulheres do Fight like a Girl são mulheres que enfrentam os seus inimigos independente de quem ou do que eles sejam.

E como foi desenhar mulheres famosas e da vida real para o Think Olga?

Kaol: Eu adorei porque eu conheci mais personalidades históricas que eu não conhecia, principalmente a Rosa Parks. Foi emocionante fazer a ilustração dela, porque eu já sabia alguma coisa sobre ela, mas eu não conhecia a fundo, eu pesquisei e eu adorei a história dela, eu adorei o quanto ela foi importante e o quanto ela me inspirou também. 

E como foi a relação com a fundação da Malala?

Kaol: A da Malala foi demais também, porque eles recebem super bem todas as artes que são feitas para a Malala e eles gostam muito que isso influencie outras meninas. Então isso é super importante e foi muito importante para mim chegar até lá. Chegar até a Malala Found foi “Uau! Foi tão longe assim?” Foi onde caiu parte da minha ficha, a outra parte não caiu até hoje.

Como surgiu a ideia de fazer aquela série sobre relacionamentos abusivos com a Arlequina?

Kaol: Foi por causa do filme Esquadrão Suicida. As pessoas estavam compartilhando muitas imagens da Arlequina e do Coringa com mensagens super românticas e isso me incomodava bastante porque todo mundo sabe que o relacionamento deles não é nada ok. Eu notei que muitas pessoas não levavam isso em consideração, que não é só romance, e aí eu comecei a publicar uma vez por dia, e hoje eu faço impressões dessa série, levo para os eventos e distribuo para as pessoas se inspirarem ou até mesmo para passar para alguém que vive em um relacionamento abusivo. Confira todas as ilustrações da série Enfrentando Relacionamentos Abusivos.

E qual é o seu recado para as meninas e para as mulheres de que “lutar como uma garota” não é algo pejorativo e nem deve ser.

Lutar como uma garota nunca vai ser algo pejorativo, porque a gente luta todo dia para fazer o que a gente gosta. E continuem lutando, continuem jogando e fazendo o que querem. Porque nós somos mulheres incríveis, com sonhos incríveis.

Confira todas as ilustrações da Kaol na página dela no facebook.

Leia também: Sobre ser mulher e ser nerd

Um comentário em “Lute como uma garota, lute como Kaol Porfírio

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