“Quando você pode entender o que todo mundo no universo está dizendo, todos soam como crianças?”

Depois de quase três temporadas ouvindo o sotaque e acompanhando o “jeitinho” escocês de ser de Peter Capaldi, nada mais justo que Doctor Who trazer na última temporada do ator uma aventura nas nubladas paisagens e nas míticas histórias da Escócia.

Os eventos de The Eaters of Light começam com uma discussão – quase uma aposta – entre o Doutor e Bill (Pearl Mackie) acerca da Nona Legião Romana e seu desaparecimento. mais um mistério real não desvendado, cuja lacuna a série busca preencher com uma fantasiosa aventura envolvendo alienígenas e viagens pelo tempo e espaço.

O roteiro de Rona Munro (que escreveu o último arco da série clássica) rapidamente divide os viajantes da Tardis, o que permite com que Bill encontre  um pequeno grupo de desertores da da Nona legião, enquanto o Doutor e Nardole (Matt lucas), se deparam com alguns pictos – antigos habitantes da região que hoje é a Escócia.

A história passa então a desenvolver um pouco dos dois grupos e a forma como cada um deles lida com a ameaça que paira na região: uma criatura que mata suas presas, sugando a luz de sua essência e de sua vida. Enquanto os soldados romanos falam com Bill sobre sexualidade, deserção e medo diante de algo que destruiu todo seu exército; o Doutor descobre que Kar (Rebecca Benson) é a guardiã do portal de onde vêm os “devoradores de luz”, e que a criatura a solta foi a desesperada tentativa da garota salvar seu povo da invasão romana.

Abordando sobretudo a pouca idade tanto dos romanos quanto dos pictos da Bretanha, o episódio coloca o Doutor mais uma vez no papel de mediador do conflito entre os dois grupos de sobreviventes que precisam se unir contra uma ameaça em comum. Cabe aí um destaque para o modo como o sistema de tradução da Tardis contribui para esse processo e também para a rapidez com que Bill se dá conta de que é graças a nave do Doutor “que todo mundo fala inglês no espaço”.

A resolução do episódio acaba por consolidar algumas ideias sobre a missão e a luta de cada um, ao mesmo em que coloca Bill no papel de questionar o Doutor acerca do que é ou não papel dele na proteção e no curso da humanidade e do universo.  The Eaters of Light  ainda traz uma doce explicação sobre a música que se ouve ao longo dos séculos e pela lembrança  que permanece crococitada pelos corvos daquela terra.

O episódio, no entanto, peca um pouco na abordagem do monstro, que sem ganhar motivação e quase nada de explicação, acaba soando meio genérico no contexto geral. O fato de vir imediatamente após The Empress of Mars, que também trazia o elemento de conflito entre dois povos, mas que trabalhava melhor os personagens separadamente, também faz com que The Eaters of Light perca um pouco de seu brilho.

Mas a divertida presença cômica de Nardole, a consolidação cada vez mais definitiva de Bill como uma companion fantástica, e os excelentes aspectos técnicos fazem com que The Eaters of Light conquiste sua importância dentro da décima temporada.

As questões que permeiam a facilidade com que o Doutor se propõe a sacrificar-se a viver o resto dos seus longos dias como guardião do portal, e principalmente o modo como ele está se esforçando – de modo até imprudente – para acreditar em Missy (Michelle Gomez), são os elementos mais intrigantes desse episódio. Uma vez que carregam ainda que de modo bastante sutil o reconhecimento do Doutor de que a morte ronda sua atual encarnação e este final se avizinha.

Depois de uma temporada bastante consistente em termos de qualidade, mas que é composta em sua grande maioria por episódios mais soltos  – o que se adequa ao fato de se tratar da primeira temporada de uma companion, mas que se afasta um pouco do esperado para a última de um Doutor -, a série enfim se encaminha para os dois episódios finais.

Ainda que o arco do cofre e da Missy tenha demorado para se consolidar de modo mais central ao longo dos episódios, a promessa é de que o mistério acerca de sua possível redenção seja crucial para o encerramento da temporada e do ciclo de Peter Capaldi como Décimo Segundo Doutor. E se, nas palavras do próprio timelord, “esse é o problema com a esperança. É difícil resistir”, só nos resta aguarda para saber o preço dessa esperança para o Doutor e para o universo.

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