“Lutar sim. Mas pelo futuro, não por um passado morto.”

O Doutor é tradicional e notadamente um diplomata. Ao longo de suas encarnações, o timelord sempre atuou em menor ou maior grau como intermediário entre espécies em contato e em conflito. Em Empress of Mars, nono episódio da décima temporada, essa habilidade conciliatória é mais uma vez posta a prova quando um vistoso “God save the Queen” é encontrado na superfície de Marte.

Sem saber se tratar de uma visita de Estado, de um fervor patriótico ou da obra de um grafiteiro ousado, o Doutor (Peter Capaldi), Bill (Pearl Mackie) e Nardole (Matt Lucas) embarcam em uma aventuresca história sobre expedições e guerreiros, coragem, erros e descobertas.

Trabalhando a característica mescla entre passado e futuro e história e fantasia, tão presente na série, o episódio coloca um grupo de soldados britânicos do período vitoriano em uma expedição sob a superfície do planeta vermelho, numa inusitada parceria com um ice warrior.

Raça recorrente da série clássica, os ice warriors já apareceram na série moderna no episódio Cold War da sétima temporada. Mas é em Empress of Mars, que sua mitologia é expandida, uma vez que temos pela primeira vez em Doctor Who a presença de sua imperatriz.

Iraxxa (Adele Lynch sob uma espantosa e perfeita maquiagem) é uma governante dura, determinada e sábia, mas que permaneceu adormecida por tempo demais, a ponto de encontrar seu planeta estéril. Uma rainha que rapidamente se depara com guerreiros que desejam conquistar seu planeta em nome do império de outra rainha – mas que decididamente não sabem o que estão fazendo.

Um dos trunfos de Empress of Mars está justamente na sagacidade dos paralelos entre Iraxxa e a Rainha Vitória e posteriormente – e de modo mais sutil – entre o velho e cansado ice warrior Friday (Richard Ashton) e o “covarde” Capitão Godsacre (Anthony Calf), figuras que já viram o suficiente da guerra a ponto de assimilarem que ela não é a solução para nada.

Outro aspecto que enriquece a história de Empress of Mars é a caracterização dos diferentes soldados vitorianos, atribuindo-lhes ainda que rapidamente histórias e características próprias que fazem com que pelo menos alguns deles se tornem pessoas relacionáveis. É fácil se irritar com a ambição de Jackdaw, se comover com o triste destino de Peach e Vincey, e principalmente, odiar profundamente as atitudes e a traição de Catchlove (Ferdinand Kingsley).

Mas é em Godsacre que Empress of Mars condensa de forma delicada e certeira  as contradições e sutilezas da raça humana que tanto irritam mas também fascinam o Doutor. A vergonha do passado, a aceitação de sua covardia, a coragem de agir diante de uma situação errada e o pedido pela própria execução solidificam o arco do capitão e endossam a esperança do Doutor em acreditar nos humanos. E não é a toa que Iraxxa faz de Godsacre um guerreiro honorário de seu povo, confirmando assim a solução diplomática sonhada pelo timelord.

Se os roteiros de Mark Gatiss costumam despertar apreensão dos fãs de Doctor Who, sobretudo depois do péssimo Sleep no more da nona temporada, as coisas felizmente são bem diferentes em Empress of Mars. Com uma história que se fecha em si mesma, mas que também prepara o caminho para os três episódios finais (alguém está caindo no papo da Missy?), o roteirista consegue construir uma narrativa que trabalha as relações de exploração e invasão, mas que não cai no lugar comum do maniqueísmo.

Seria fácil tratar os soldados como uma massa única e limitada, mas o roteiro explora suas singularidades. Da mesma forma, o episódio também não faz de Iraxxa uma imperatriz alien maligna e vingativa, mas atribui a ela um aprendizado e uma ponderação, o que rende inclusive, uma excelente interação com Bill na posição de “únicas fêmeas no meio de machos ruidosos”.

Com referências tanto à série clássica – a presença de Alpha Centauri é claramente um aceno a quem conhece o arco The Monster of Peladon de 1973 -, quanto a elementos da cultura pop como Star Wars, Exterminador do Futuro e Frozen,  Empress of Mars configura-se como um interessante e aventuresco capítulo da história de Doctor Who, que consegue reunir os elementos que garantem a essência e a longevidade da série. E que com seu jeito britânico de ser, saúda as grandes rainhas não só da Terra, mas também de Marte.

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