Filmes sobre heróis oriundos dos quadrinhos têm transitado ao longo dos anos por diferentes gêneros: da comédia ao filme policial, da space opera ao filme de guerra. E da mesma maneira, têm adquirido diversos tons: fantásticos ou realistas, sombrios ou descompromissados; com reflexões, contradições e dramas existenciais ou carregados de referências à cultura pop.

Mulher-Maravilha, por sua vez, toma um caminho distinto. O longa dirigido por Patty Jenkis e protagonizado por Gal Gadot é um retorno ao ideal clássico de super-herói. E é nesse resgate da gênese que o filme se difere e se destaca diante das últimas produções do gênero. Notadamente um filme de origem, Mulher-Maravilha, é sobre um ícone, sobre uma figura de inspiração na qual enxergamos e encontramos a esperança de como o mundo poderia ser.

Curiosamente, é ao surgir como um ser livre das convenções e das corrupções da raça humana que Diana, Princesa de Themyscira, demonstra toda a humanidade que carrega dentro de si. Isso porque Gal Gadot dá à amazona uma face de profunda inocência e simpatia, e acima de tudo de empatia com o sofrimento humano.

Criada sob a influência de duas mulheres grandiosas e poderosas: a sua mãe Hipólita (Connie Nielsen), uma rainha cansada da guerra; e sua tia Antíope (Robin Wright), uma general e exímia guerreira, Diana sabe desde muito cedo qual é a sua missão, ainda que não saiba muitas coisas sobre sua própria origem e sobre o mundo que a espera além das deslumbrantes praias de Themyscira.

É a chegada do piloto e espião Steve Trevor (Chris Pine) que coloca Diana em contato com um mundo dos homens – um mundo que, de acordo com sua mãe, não a merece. As convenções desse mundo a respeito das mulheres, a guerra e a dubiedade moral das pessoas são elementos estranhos à amazona, mas que não a afastam de sua missão e de seus princípios.

É nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial que Diana se depara com as trevas e a luz que permeiam o ser humano. É lá que ela se recusa a aceitar passivamente os efeitos de um conflito que para ela não tem sentido. Mas também é lá, por meio das figuras de Sameer (Saïd Taghmaoui), Charlie (Ewen Bremner) e Chief (Eugene Brave Rock), parceiros de Steve, que a princesa de Themyscira entende que a imperfeição humana guarda seus próprios sonhos e medos.

Do ponto de vista técnico, em Mulher-Maravilha, a ensolarada Ilha Paraíso contrasta perfeitamente com a fotografia mais desbotada e azulada do mundo dos homens, que evidencia o papel de Homem de Aço e Batman vs Superman nas escolhas estéticas dos filmes do universo Warner DC. A influência de Zack Snyder também é sentida no uso de câmera lenta nas cenas de ação, ainda que em Mulher-Maravilha esse recurso seja melhor explorado e não cansativo.

E é na direção de Patty Jenkins que fica evidente a diferença que faz a presença de uma mulher no comando de um filme como esse. Ainda que Gal Gadot passe boa parte do longa com as pernas de fora, e que a gente saiba da inverossimilhança de acabar uma luta com o cabelo e a maquiagem impecáveis, o filme em momento algum usa de enquadramentos ginecológicos para hipersexualizar a personagem. Da mesma forma, existem camadas e nuances de profundidade em diversas personagens femininas que nos fazem duvidar se um diretor homem poderia trabalhá-las da mesma forma que Patty Jenkins o fez.

No entanto, Mulher-Maravilha perde sim algumas oportunidades de trabalhar melhor a mitologia da personagem e o papel do longa enquanto primeiro filme solo de super-heroína. O pouco espaço para a personagem Etta (Lucy Davis), a divertida e adorável secretária de Trevor, é um desses aspectos. Mas o mais notável é a chance perdida de explorar a questão da sexualidade das amazonas, uma vez que uma cena dá quase a entender que existe uma relação entre Antíope e a tenente Menalipe (Lisa Loven Kongsli), mas isso logo se perde.

O filme tem ainda alguns problemas de montagem, sobretudo em seu terço final, – sendo uma ‘pausa para buscar a espada’ o mais gritante -, além da batalha final destoar um pouco do tom do resto do filme, principalmente no que diz respeito ao uso do CGI. Mas são falhas que estão muito longe de desmerecer a qualidade do filme como um todo.

As arrepiantes cenas de ação (a batalha entre amazonas e soldados na praia de Themyscira é uma das coisas mais bonitas e poderosas que vi no cinema nos últimos anos – e é a única situação em que relevo um tiro de arco com mais de uma flecha). O orgânico e sincero modo como a relação entre Diana e Steve é desenvolvida;  e acima de tudo, o modo como a inocência e a força da Mulher-Maravilha são retratadas fazem do filme  não só o melhor do DCverse (o que não é nada difícil, nem novidade), mas evidenciam que era dessa forma que esse universo deveria ter começado a ser construído no cinema.

Mulher-Maravilha é um triunfo enquanto filme que ultrapassa as barreiras de gênero, mas é principalmente um marco na representatividade e na importância que os filmes de super-herói há muito deviam às mulheres e à toda uma geração de meninas que ganham uma poderosa imagem a se espelhar.

Porque Mulher-Maravilha é sobre esse exemplo, sobre esse ícone de uma deusa que luta com um sorriso no rosto, mas que também se compadece do sofrimento e do valor daqueles que não podem lutar. Uma heroína que tem a esperança e o desejo de salvar um mundo que talvez não mereça ser salvo. Afinal, seu heroísmo não está nesse merecimento, mas naquilo que se acredita.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s