“Qual é a razão de sobreviver se você nunca vê ninguém, se você se esconde do mundo? Quando foi a última vez que você abriu as persianas?”

Ao assistir Knock Knock, quarto episódio da décima temporada de Doctor Who, é impossível não lembrar das histórias de Scooby, Salsicha e seus amigos enfrentando monstros e mistérios. O grupo de jovens, a casa mal assombrada, o velho de aparência sombria e suspeita, e o monstro a ser descoberto são elementos que ecoam imediatamente ao desenho de Hanna-Barbera.

Mas muito diferente de Scooby-Doo, Knock Knock revela-se uma história sobre relações familiares, em que o drama logo se sobrepõe ao pressuposto terror.

O episódio acompanha Bill (Pearl Mackie), que sai da casa de sua família adotiva para morar com alguns amigos, e que no processo faz o que costumamos fazer numa situação dessas: chamar um amigo com carro para ajudar na mudança. O amigo no caso é o Doutor e o carro é a Tardis, o que rende mais uma das impagáveis cenas entre o Senhor do Tempo e sua companion.

Relação que se intensifica e torna-se mais divertida e complexa a medida em que Bill sente-se envergonhada com o Doutor interagindo com seus novos amigos, e nos momentos em que ela o chama de avô – seria uma referência à Susan, neta e companion do primeiro Doutor ou é só a gente ansiando por uma referência do tipo?

Os amigos de Bill ( Shireen, Pavel, Harry, Felicity e Paul) trazem ao episódio uma atmosfera que por vezes remete mais ao spin-off Class, do que a Doctor Who propriamente dito, mas cumprem seus papéis ao encarnar os principais arquétipos de jovens em um filme de terror. O grande destaque em termos de personagens, no entanto, é o Senhorio, interpretado pelo ator David Suchet, o detetive Hercule Poirot da série Poirot.

A presença, ainda que por vezes subaproveitada, de Suchet é um dos pontos altos de um episódio que acerta em elementos técnicos como a fotografia em tons terrosos e sobretudo na edição de som que capta as vibrações da madeira e do medo, mas que peca em termos de roteiro.

Passado todo em uma mansão sombria – que é inclusive o outro lado da casa que serviu de locação do episódio Blink da terceira temporada -, Knock Knock aproveita e brinca com os elementos clássicos das obras de terror, mas não consegue desenvolver completamente a tensão de seu mistério.

Nesse sentido, o desfecho do episódio é paradoxal. Por um lado evidencia a falha do roteiro em termos de construção do mistério e traz uma resolução simplista diante da atmosfera construída. Mas por outro, traz um emocionante momento de reconciliação e de descoberta familiar, que evidencia o caráter mais humano e intimista que Doctor Who pode alcançar.

Ainda que não cumpra todas as suas promessas em termos de história, o episódio mantém sua importância ao retratar o perigo da inocência das relações humanas. E se em Scooby-Doo, homens se escondiam sob o disfarce de monstros, Knock Knock mostra que muitas histórias, dramas e contradições também se escondem por trás dessa máscara.

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