Super se teletransporta, Olivia pode ficar invisível, Cláudia tem superforça e Renata pode ler mentes. Juntas, as quatro mulheres descobrem seus poderes e que não estão sozinhas.

Por trás das telas, Caroline Mariga, Lara Koer, Maria Fernanda Bin e Viviane Mayumi são as criadoras de Super, uma micro websérie em 7 episódios, que discute temas como empoderamento de mulheres e sororidade.

Produzida por uma equipe majoritariamente feminina, a websérie nasceu como um projeto no curso de Cinema da UFSC de Florianópolis e foi lançada em 20 de março deste ano. A produção venceu na categoria de melhor atriz do Rio Webfest, e vai participar do Webfest Berlim em setembro.

Conversamos com a diretora e roteirista Lara Koer e com a diretora de fotografia Caroline Mariga para falar de Super e sobre o trabalho das mulheres no audiovisual. confira a entrevista completa.

Como surgiu a ideia da websérie Super?

Lara: Quando criei o roteiro pela primeira vez a ideia era ter uma menina que se teletransportava toda vez que espirrava e era só isso. Escrevi há muito tempo atrás e não sabia o que fazer com esse roteiro. Quando já estava na universidade, entrei em contato com feminismo, comecei estudar a teoria e tudo mais, e tomei a decisão como roteirista de que nenhum filme meu ia ser sobre protagonistas homens. Aí eu fui revisitar os roteiros que eu tinha, encontrei esse e pensei: já sei para onde essa história vai. Eu vou me apropriar da jornada do herói, que é um artifício utilizado por roteiristas do mundo inteiro, e transformar na jornada da heroína, porque isso seria muito interessante. Então em termos de estrutura de roteiro não seria nada fora do ordinário, mas só o fato de tratar de história de mulheres já seria revolução de alguma forma.  Juntando com as meninas que encontrei no caminho, a gente foi pensando e fortalecendo ainda mais essa ideia de como essas protagonistas mulheres importavam e como isso fazia diferença.

Lara Koer, diretora e roteirista de Super

Quais foram as referências de heroínas na criação da série?

Lara: Toda a equipe interferiu criativamente e juntas definimos que essas essas mulheres provocariam uma identificação, ou seja, poderiam ser qualquer uma de nós, porque elas são qualquer uma de nós. Elas têm personalidades próprias, mas poderiam ser suas amigas, poderiam ser suas colegas, poderia ser você. Então as nossas inspirações são as mulheres ao nosso redor. Desde amigas nossas que passaram por histórias e as próprias atrizes colocaram muitas ideias e muitas inspirações de mulheres ali. Então eu acho que não tem uma referência específica, as nossas referências não estão em mulheres super heroínas já existentes, mas estão em mulheres do dia a dia e da nossa rotina. Como diz a música da Manuela Tecchio, “super-heroínas são as minas como eu e você”.

E as referências para a criação de cada personagens?

Lara: A atmosfera de cada uma delas, o cenário e o figurino é inspirado em mitologias ou grupos de mulheres.
Carol: Dá para perceber bem isso na direção de arte. A Super, por exemplo, tem muita coisa relacionada à mulheres e à mitologias que ligam ao mar. Também há referências ao documentário As Hiper Mulheres, sobre uma tribo indígena Kuikuro e os rituais das mulheres.
Lara: É uma tribo de mulheres muito fortes e a gente usou isso como inspiração na personagem Olívia. A Cláudia, que tem superforça, tem referências estéticas das amazonas, e para a  Renata que lê mentes, a referência são a Pussy Riot. Tudo isso afeta a paleta de cores, a trilha, o figurino e tudo mais, a gente tentou criar um universo próprio para cada uma dessas mulheres.

Caroline Mariga, diretora de fotografia de Super

O poder de cada uma se relaciona com questões do nosso cotidiano. O que cada uma dessas habilidades representa?

Lara: A gente tentou pensar em como isso pode ser um paralelo com a vida. Eu acho que Super é um realismo fantástico, então a tentativa é de trazer alegorias para coisas da vida real. O poder da Super de poder se teletransportar é sobre você poder ir para onde quiser, para qualquer espaço, qualquer lugar, o direito de ir e vir. Ler mentes é quase como se toda mulher tivesse essa coisa da empatia, da sororidade, de certas dores que só mulheres sabem porque sentem igual. Superforça vem da ideia de que a força física da mulher nunca é levada a sério, de que não é possível uma mulher ser tão forte quanto um homem, e a gente sabe que isso não é real.
Carol: E nisso também estão questões de trabalho no próprio set. Principalmente quem trabalha na área de fotografia, maquinária e carrega mais peso sempre vai ouvir algum homem falando que você precisa de ajuda para isso, e não é assim.
Lara:  Já a invisibilidade é a ideia de você poder ter voz sem ser objetificada pelo seu corpo, se você pudesse desaparecer e seu corpo sumir e ser levada a sério.

A hipersexualização de mulheres é bem comum em produções sobre super-heróis. Como vocês lidaram com a questão da objetificação do corpo feminino?

Lara: Filmes que hipersexualizam mulheres  são feitos por homens. Começa por aí, já que por trás das câmeras eram mulheres pensando aquilo. E esse pensamento é para o tipo de fala,  o que que vai ser dito…
Carol: Como vai ser enquadrada cada cena, a fotografia. Se essa fotografia vai dar foco na bunda ou no peito ou vai focar na ação da personagem e no que ela está dizendo.
Lara: Tinha que ser uma preocupação ativa e constante. A gente estava sempre se preocupando com isso. Nossos enquadramentos são escolhas, e não podem ser o olhar viciado de “ah, isso é filme de super-herói”. Por exemplo, até o poster dependendo do enquadramento e do ângulo poderia ser sexualizado, mas não é isso: ali ela está forte. São escolhas que foram feitas conscientemente também porque foram feitas por mulheres.  Por isso que o projeto precisava de uma equipe formada majoritariamente por mulheres.

Parte da equipe de produção de Super

Uma das grandes marcas de Super é o trabalho das mulheres por trás das câmeras. Como foi montar uma equipe composta por mais de 80% de mulheres?

Lara: É completamente coerente com o projeto, então lógico que isso foi questionado, mas foi questionado por homens ou por pessoas que não conheciam o projeto. Não faria sentido ser diferente, o ideal é que fosse feito só por mulheres, mas não conseguimos isso porque era um trabalho voluntário e porque estávamos dentro da universidade. Mas todas as direções de equipe são ocupadas por mulheres e os homens que estavam nessa produção  tiveram que se posicionar de forma diferente do que estão acostumados. Eles tiveram que ouvir, era um set em que a postura deles estava sendo posta a prova constantemente.
Carol:  E eles estavam tendo que participar dessa reflexão junto com a gente.

Para vocês quais são as referências de mulheres que trabalham com audiovisual?

Lara: É complicado porque não são os primeiros nomes que vêm a cabeça, porque a gente vê pouquíssimo de mulheres e filmes de mulheres nem sempre ganham o mesmo reconhecimento. Eu gosto muito da diretora dinamarquesa Susanne Bier, em questão de roteiro eu gosto muito da Julie Delpy. A Shonda Rhimes é uma referência master, principalmente para séries, essa mulher é um gênio tanto para a produção executiva quanto em termos de roteiro. A gente também tem professoras que são inspiração, e  muitas mulheres da edição no cinema, porque a edição era um trabalho de mulheres, porque parecia com costura. Mas é difícil falar nomes, já que as referências cinematográficas e teóricas que a gente mais aprende são homens.

Olívia (Bubah Machado), Renata (T. Alvez), Cláudia (Bárbara Martins) e Super (Giulia Pamina).

Um dos aspectos mais interessantes em Super é a dinâmica das personagens e a força que elas descobrem juntas. Como foi a escolha desse elenco que tem tanta química?

Lara: Como a gente tem essa participação política nas telas, a gente também teve por trás das telas. Queríamos que fosse um set livre de opressões e esse pensamento começou desde o teste de elenco. Na maioria dos testes de elenco é feita uma chamada e você acompanha os candidatos sem dar opiniões e esperanças, mas como diretora eu não queria viver essa experiência. Então desde o começo fizemos um teste coletivo, com uma série de jogos teatrais e improvisações com todas as meninas que se inscreveram. E depois disso teve muitos ensaios que não eram só texto e fala. Era criar junto, era conversar…
Carol: Algumas cenas foram totalmente reescritas por conta da conversas e improvisações desses ensaios.
Lara: Elas tinham uma boa dinâmica porque elas conviveram, a gente construiu essa amizade fora das telas e por isso que deu tão certo. Todo mundo construiu coletivamente em todos os setores, justamente porque a gente queria trazer do feminismo isso de ouvir as outras mulheres mais do que qualquer outra coisa. Carol: A  gente mandava as ideias para todo mundo, e quando isso voltava para nós, selecionávamos as ideias como se fossem feijõezinhos.

A imagens da abertura da série foram feitas durante a Fogueira da Libertação em maio do ano passado (leia mais aqui). Como foi essa experiência?
Lara: Só de você perguntar eu fico arrepiada. Foi um dos momentos mais incríveis da minha vida, porque a gente foi para lá com a missão de que tínhamos que gravar uma abertura, mas no meio do processo eu já estava tão inserida que eu nem lembrava que estava gravando alguma coisa. Ver aquele grupo de mulheres em volta da fogueira numa noite de lua cheia falando sobre as coisas que elas vivenciaram… algumas muito distantes. Foi muito bom ver o depoimento de meninas que ecoavam várias coisas que eu também sentia e poder ter esse diálogo em um momento em que estava todo mundo muito aberto, muito sensível. Foi um momento catártico.

Fogueira da libertação na Praia da Daniela, em Florianópolis.

É comum ouvirmos falar da “personagem feminina forte” que na verdade acaba sendo só mais clichê em filmes e séries. Na visão de vocês, o que é preciso para criar personagens femininas realmente fortes e bem construídas?

Lara: Acredito que o problema está na superficialidade e Hollywood trabalha muito em cima da superficialidade. Não é desafiador se a gente for honesto e verdadeiro, é só criar mulheres de verdade. É desafiador no sentido de que para mim, por exemplo, é muito mais difícil escrever uma mulher negra. Dentro do meu recorde tento escrever o mais específico possível, quanto mais aprofundado e mais específico for, mais fácil para as pessoas se identificarem do que se permanecer na superfície e não ser real. Quando a gente tenta falar de assuntos que a gente não domina e a gente não escuta, a gente não faz um trabalho real e acaba sendo superficial.
Carol: E também é preciso criar uma personagem que seja forte mas que também seja vulnerável para que possa criar conexão com as outras personagens. Ela vai estar naquele meio e ela vai estar reagindo ao que está vindo para ela. É uma forma de sensibilidade que soma para a força que a personagem tem.
Lara: E muitas dessas personagens que são mulheres fortes superficiais não são pensadas a partir de pessoas reais, elas são pensadas a partir de projeções. Parece que existem três tipos de mulheres: a mulher forte, a mulher gostosa e a mulher inteligente e aí é isso que Hollywood faz. E elas são separadas, cada uma é uma coisa e não pode coexistir, enquanto os homens têm várias problemáticas: ele é forte, mas ao mesmo tempo ele é inteligente… e de novo, eu acho que é porque são homens que escrevem. São raros os roteiristas homens, principalmente em Hollywood, que conseguem retratar mulheres de forma coerente.

Giulia Pamina, melhor atriz no Rio Webfest por sua atuação como Super.

Tanto no mundo dos super-heróis quanto no do próprio audiovisual, as mulheres enfrentam certa resistência de pessoas que acreditam que “as coisas sempre foram assim e não precisam mudar”. Como se posicionar diante disso?

Lara: É difícil, mas a gente está aí para mudar. Já que a gente tem o privilégio de fazer cinema, o nosso cinema é um cinema de militância. A gente faz cinema e a gente vai ocupar esse espaço como mulheres feministas.

Como está sendo a repercussão da websérie?

Lara: A gente tem recebido muito feedback positivo. É muito massa ver as minas falando da personagem que gosta, para quem torce, pra quem shippa…

Está permitido shippar então?

Lara: Está! tem que shippar todo mundo.

Criadoras e atrizes de Super durante o Rio Webfest

Vocês têm planos para a segunda temporada de Super?

Lara: A gente está em busca de financiamento. História tem, temos história para várias temporadas. Se a Netflix chamar tem como fazer mais longa e maior
Carol: Estamos abertas a negócio.

E quais superpoderes vocês queriam ter?

Carol: Criar mundos…É algo que está relacionado a trabalhar com direção de fotografia, porque você tem que criar atmosferas. E outro superpoder… acho que controlar o vento. Tem muito vento aqui em Florianópolis, acho que eu queria ter um controle sobre isso. Ah, vou gravar hoje e está chovendo… peraí, chuva.
Lara: Eu acho que eu queria prever o futuro. Prever o futuro ia ser massa.

Os episódios de Super estão disponíveis aqui.

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