O progresso humano não é medido pela indústria. É medido pelo valor que você coloca em uma vida. Uma vida sem importância, uma vida sem privilégio.
É isso que define uma era, é isso que define uma espécie.

Por trás de seus vilões de aparência questionável e de suas fantasiosas histórias pelo tempo e espaço, Doctor Who sempre trouxe questões sociais e camadas políticas que servem de metáforas da nossa própria história. Em Thin Ice, terceiro episódio da décima temporada, a aventura pela Londres do início do século 19, também é um passeio por reflexões sobre racismo, privilégios e valorização da vida humana.

Após os eventos de Smile, por um erro de pilotagem do Doutor (Peter Capaldi) – ou pela teimosia da Tardis – o timelord e sua companion Bill (Pearl Mackie) vão parar em 4 de fevereiro de 1814 na última grande feira realizada sobre as águas congeladas do rio Tâmisa. Um acontecimento fantástico, mas real, de um período conhecido como a Pequena Era Glacial da Idade Moderna.

Enquanto  artistas, comerciantes e até elefantes caminham sobre a superfície do rio, um perigo espreita debaixo de seus pés: uma criatura gigantesca que devora vítimas desavisadas que pisam em gelo fino.

Alienígena, terráquea ou mitológica? Pouco importa, já que o Doutor e Bill logo descobrem que a criatura também é uma vítima. Os monstros são os outros, os monstros somos nós. Ou no caso específico de Thin Ice, o monstro é Lorde Sutcliffe (Nicholas Burns). Uma figura desprezível que alimenta a criatura aprisionada com humanos para conseguir combustível. Um homem que do alto de seus privilégios, acredita que a vida humana nada mais é do que matéria-prima para o progresso.

Verdade seja dita, Sutcliffe é pouco explorado dentro do episódio, tornando-se uma figura bastante limitada e um vilão sem muitas camadas. O que importa dentro do roteiro, no entanto, é a dimensão da sua falta de humanidade, o que rende importantes reflexões a respeito do valor que é dado a cada pessoa baseado nas suas condições sociais, e sobre como a questão do preconceito racial é inaceitável.

Logo no início do episódio, Bill, receosa de como sua cor seria recebida em um período em que a escravidão existia na Inglaterra, percebe a presença de negros em lugares e épocas que a história embranqueceu. Não é a primeira vez que a série toca em questões raciais, – Martha Jones teve que lidar inclusive com uma versão racista do Décimo Doutor sem memórias – mas é um momento marcante de discussão sobre whitewashing e um literal soco na cara do preconceito racial, inclusive de parte da audiência, o que só reforça a importância de Bill como companion.

Sagaz em suas referências e perguntas, e deslumbrada pelo encanto das aventuras a bordo da Tardis, Bill tem em Thin Ice seu primeiro momento de real dúvida a respeito da figura de seu tutor. Ao ver uma criança afundar, Bill implora para que o doutor faça alguma coisa para salvá-la, em um momento que nos recorda imediatamente de Donna pedindo a décima encarnação do Doutor que salve alguém em Fires of Pompeii. Mas se naquela ocasião o Doutor atendeu sua companion – em um gesto que influenciou inclusive a escolha do rosto de sua atual encarnação – dessa vez o timelord já havia seguido em frente.

O choque de realidade de Bill diante da morte e do fato de que o homem ao seu lado é de fato de outro planeta, faz com a companion questione o doutor sobre quantas pessoas ele viu morrer e quantas matou.

O peso das perguntas e a dureza das respostas evidenciam que o Doutor se importa sim, mas que não pode se dar ao luxo de lamentar. Essa necessidade e a essa dor de seguir em frente, retomadas neste episódio, são aspectos cruciais na vida e na história do doutor e tornam sua figura tão forte e complexa.

Bill, por sua vez, assim como tantos companions antes dela, aprende ao longo do episódio que viajar com o Doutor tem profundas consequências e que seguir em frente é uma delas. E em uma cena que remete ao episódio Kill the Moon da oitava temporada, a companion também aprende que as escolhas difíceis não estão apenas nas mãos do Doutor, mas também nas suas.

Ainda que o final do episódio traga ainda mais expectativa sobre o conteúdo do cofre guardado pelo Doutor e por Nardole (Matt Lucas), Thin Ice – assim como acontece com a maioria dos “episódios históricos” de Doctor Who – soa como uma aventura mais descolada e distante do arco principal da temporada, quase que um filler.

Esse aspecto, porém, não diminui a qualidade de Thin Ice, que mesmo com uma aventura mais episódica, consegue nos manter envolvidos em seu enredo. A qualidade técnica de seus cenários e figurinos impecáveis, aliada a química cada vez mais irresistível de Peter Capaldi e Pearl Mackie fazem com que o episódio siga a adorável e divertida consistência que a série tem mantido nesta temporada.

A mensagem de aceitação, mudança e respeito pela vida humana contida em Thin Ice, no entanto, segue livre e longe – talvez até a Groenlândia…

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