São nos momentos em que sonoras gargalhadas são acompanhadas de suaves lágrimas, e nos instantes em que o esquisito e o absurdo revelam o que de mais profundo e humano existe em nossas relações que enxergamos a força e a beleza de Guardiões da Galáxia Vol. 2.

A deliciosa e surpreendentemente emocionante sequência de um dos sucessos mais inesperados da Marvel Studios consegue não apenas repetir o humor escrachado do primeiro filme, mas também aprofunda a história e as relações de cada um dos personagens. O resultado é uma colorida e empolgante aventura ao lado de criaturas que precisam entender suas origens e o seu papel dentro do grupo de idiotas e desajustados guardiões que a galáxia ganhou.

Peter Quill (Chis Pratt), Gamora (Zoe Saldaña) , Rocket (Bradley Cooper), Drax (Dave Bautista) e Groot (Vin Diesel) voltam não como uma equipe de super-heróis totalmente estabelecida, mas como um grupo que ainda briga, provoca e diverge, e que vai compreendendo ao longo do filme o que significa família. Os atores retornam mais a vontade em seus personagens, inclusive na melhora do trabalho de dublagem de Rocket e Groot, mas o destaque é sem dúvida a evolução de Drax.

O grandalhão que não entende metáforas surge em Guardiões da Galáxia Vol. 2. como o perfeito tio do pavê e suas gargalhadas aleatórias e sua completa falta de tato se acentuam ainda mais na interação com Mantis. A personagem vivida por Pom Klementieff, ainda que pudesse ser melhor desenvolvida, não deixa de ser uma interessante adição ao grupo, sobretudo, com o uso e as possibilidades de seu poder empático.

Somam-se ainda ao elenco figuras importantes como a sacerdotisa Ayesha (Elizabeth Debicki), líder de um povo dourado, metido e com tendências gamers; e  Silvester Stalonne e toda a imponência de seu queixo em uma pequena mas importante participação como o líder dos saqueadores Stakar. Além é claro, de Ego, o planeta vivo e pai de Peter Quill, vivido canhestra e brilhantemente por Kurt Russell.

O maior ganho em termos de personagens, no entanto, diz respeito às figuras secundárias que foram apresentadas no primeiro longa e que agora ganham arcos narrativos bem desenvolvidos. A Nebula (ou Nebulosa) de Karen Gillan não é apenas a máquina de matar do primeiro filme, uma vez que conhecemos um pouco mais de seu passado e finalmente entendemos a dimensão do seu ódio por Thanos e também por Gamora. Além disso, o modo como o filme trabalha a relação e as tretas entre as duas irmãs contribui tanto para o entendimento da figura de Nebula, quanto para o crescimento de Gamora como personagem.

No caso de Yondu (Michael Rooker), o crescimento em relação ao primeiro Guardiões… transforma o saqueador de criou Peter Quill em uma figura central para o arco narrativo da paternidade do herói, por meio da complicada e interessante relação com o Senhor das Estrelas. Também é a mortífera flecha de Yondu que dá vida a algumas das cenas mais esteticamente interessantes do longa e que acerta em cheio no aspecto mais comovente e sentimental do filme.

Guardiões da Galáxia Vol. 2 consegue ainda ser bem resolvido em um aspecto em que os filmes do Universo Cinematográfico Marvel costumam tropeçar: a criação de vilões. Os antagonistas do filme, e sobretudo, a ameaça estabelecida ao longo da trama seguem em um crescente grandioso cujas consequências podem ser um elo sutil com as demais produções do estúdio. Mas não espere grandes ligações com Guerra Infinita e com os Vingadores, já que tanto ao longo do filme, quanto nas CINCO cenas pós-créditos o que se vê são referências a elementos do universo dos Guardiões tanto no cinema quanto nos quadrinhos.

Já as referências à cultura pop, sobretudo dos anos 80, seguem firmes e fortes – e com direito a participações especiais. Do mesmo modo, a trilha sonora – marca registrada da franquia – é tão boa quanto a do primeiro filme e consegue ainda estar bem inserida no contexto dramático da produção.  Peter e Ego conversam inclusive sobre Brandy (You’re a fine girl) e a letra da música serve como um elemento importante da relação que se estabelece entre eles. O destaque da trilha, no entanto, talvez seja Father And Son de Cat Stevens que ecoa em um dos momentos mais belos do filme.

O longa, é claro, não é isento de defeitos.  Alguns momentos podem parecer explicativos demais e algumas piadas – ainda que funcionem – podem soar desnecessárias. Esses momentos, no entanto, não atrapalham a experiência de um filme que com uma jornada visual e narrativamente enlouquecida, expande um universo engraçado e bizarro.

Ao criar uma história que trabalha adequadamente cada um dos personagens com camadas e arcos próprios, e que sabe mesclar comédia e drama na medida certa, o diretor e roteirista James Gunn, consegue fazer mais uma vez um filme que não se leva a sério, mas que de modo esquisito e divertido, consegue ser uma das coisas mais consistentes e interessantes que a Marvel já fez nos cinemas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s