“A história que ninguém gostaria de contar” é também a história que todos precisam ouvir.  Entrecortes, publicado por Anastácia Otonni e disponível na Amazon, é um livro sobre as dolorosas marcas do bullying na adolescência. Uma autoficção que trata de temas como depressão e suicídio de maneira honesta e crua, sem romantização e sem rodeios. Mas acima de tudo, com esperança.

Lançado num momento em que bullying e suicídio entre adolescentes estão em pauta por conta de séries como 13 Reasons Why  e do perigoso jogo Baleia Azul, o inspirador Entrecortes  destaca-se por trazer a dor real de quem  cresceu sendo hostilizada, mas que encontrou saídas e apoio para sobreviver e encontrar-se.

A autora Anastácia Ottoni conversou com o Mad Merlim para falar sobre o livro e sobre aspectos como a conivência que perpetua o bullying e a importância da busca por ajuda. Confira a entrevista completa.

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Entrecortes é uma auto-ficção que mexe com memórias muito fortes e, imagino que, difíceis de ser revisitadas. Em que momento você percebeu que precisava contar essa história e como foi contá-la?

Anastácia: Eu diria que tudo pareceu conspirar para que eu escrevesse os fragmentos que, pouco a pouco, deram origem ao livro. Vi que as pessoas estavam falando a respeito (bullying) e isso despertou em mim uma necessidade de dizer que ninguém está sozinho e que é possível seguir com a sua vida; é possível sobreviver. Escrever cada trecho foi doloroso, pois vivi tudo novamente.

“Ouvia e vivia tudo como um eco distante. Dessa forma, nada parecia real e, se não parecia real, poderia não ser real. Certo?”

O livro toca em três questões muito fortes: bullying, depressão e suicídio, e em como tudo isso afeta os adolescentes. A partir da sua experiência e do seu relato, como você acredita que pais e escolas podem lidar melhor com essas questões?

A: Quando você é visto e tratado como um número, é claro que vai tratar os outros como números – como coisas. Acredito que o bullying que sofri se deu por esse fator, visto que estudei em um colégio de freiras enorme. Não havia aulas que estimulassem habilidades sócio-emocionais ou trabalhassem a empatia. Não se falava de bullying ou respeito, embora ler a bíblia fosse parte do conteúdo programático. Acho que o grande problema é que as escolas esquecem que não estão lidando com máquinas que gravam informações, e sim pessoas. Já passou da hora das escolas tradicionais se reinventarem. Com relação aos pais, meu único conselho é que ouçam os seus filhos. Algo pode parecer bobo para você, mas não se esqueça que um dia você também foi um adolescente.

Questões como bullying e suicídio têm ganhado visibilidade com séries como 13 Reasons Why. Você assistiu a série? Nessa questão da importância de falar sobre o tema versus alguns problemas de abordagem, qual a sua opinião sobre a série?

A: Assisti a série e, inclusive, ela serviu de gatilho para que eu contasse a minha história. Acho importantíssima a gama de debates que a série levanta, mas a execução deixou a desejar no momento em que abriu espaço para romantizações. É extremamente importante falarmos de suicídio, depressão, abuso e bullying… Mas por favor, não romantize *a* cena, não coloque romance em algo que é apenas triste demais. Minha maior preocupação é que adolescentes assistam aos episódios finais e tirem conclusões erradas. É muito perigoso associar bullying diretamente com suicídio, sem falar de questões de saúde mental. A série não aborda essa questão e isso é problemático. Em momento algum se fala de depressão. Não existe suicídio quando a saúde mental está boa. Precisamos falar sim sobre as Hannahs que existem, mas com cautela e sabedoria.

Qual é a sua visão sobre a questão da glamourização e da romantização do suicídio?

A: Fico muito preocupada porque quem romantiza o suicídio geralmente glamouriza doenças mentais. As pessoas tem essa visão de que depressão é algo bonito, coisa de artista, que tomar remédios é legal, fumar três maços de cigarros por dia te torna mais cool… Não, apenas não. E digo isso como alguém que viveu tudo isso. É preciso compreender que é um assunto sério e muito triste. Não há nada de bonito em não conseguir levantar da cama, na verdade você se sente um lixo. Como podem achar isso legal? Como vocês conseguem romantizar algo tão triste quanto alguém desistir da própria existência?

Ao longo de todo o texto você fala sobre aqueles que se calam diante do bullying e daqueles que não agridem, mas riem das agressões. Como mudar essa situação de conivência?

A: Precisamos conscientizar as pessoas de que pela inação elas também podem ser culpadas. Por exemplo, se você se sente culpado por não ter ajudado um idoso que caiu na rua… Por que não vai se sentir culpado por permitir que pessoas humilhem outras? É para se sentir culpado. Se você poderia ter impedido e não fez nada, a culpa também é sua. É esse comportamento que valida o bullying. Se ninguém rir da piada, não tem porquê o bully continuar. Para mudar esse cenário, acredito que basta ter coragem e empatia. No momento em que um se impõe, outros também tomam coragem para se impor.

Um dos momentos mais marcantes é aquele em que você conta como sobreviveu. Qual é a importância de falar sobre as saídas, sobre pedir ajuda?

A: É importante mostrar que você pode não ser uma Hannah e, principalmente, que é melhor se você não se tornar uma Hannah. Quando estamos nessa situação achamos que a vida é composta somente disso e que será assim para sempre. Mas não… As coisas realmente melhoram e você pode superar tudo isso, apenas entenda e aceite que você não precisa passar por tudo isso sozinho. Não deixar a mágoa te sufocar é muito importante, além de poder compartilhar as lágrimas.

“Sei que pode parecer clichê, mensagem panfletária, mas sempre tem alguém que se importa. Sempre. Mesmo que você ainda não conheça. Eu me importo, você não está sozinho.”

Ainda que eu te conheça só pela internet, a sensação que tive – e que muita gente teve – ao ler Entrecortes foi de surpresa em saber que alguém tão peculiar e admirável como você passou por tudo isso. Como foi o teu processo de superar e encontrar “as singularidades que te trazem orgulho”?

A: Quando me foquei na leitura, me encantei com diversos universos onde ser diferente era o que tornava o protagonista um herói. Aos poucos fui recuperando minha autoestima e usando o meu “freak-factor” como arma e então, aceitando com orgulho. Sempre fui diferente e abraçar cada componente que forma a minha pessoa foi primordial para que eu me sentisse livre. Escrever também foi fundamental nesse processo porque agarrei essa habilidade como um super-poder.

Como tem sido a recepção do livro e qual é o teu sentimento depois de ter falado sobre tudo isso?

A: Incrível! Tenho recebido muitos depoimentos emocionantes e isso é gratificante. Me sinto feliz por ter conseguido exorcizar isso de mim, mas principalmente de poder usar a minha história como incentivo para que não repitam com os outros o que fizeram comigo. Além, claro, de mostrar para as vítimas de bullying que eles não estão sozinhos. Vai por mim. Eu estou aqui.

“Eu sou o universo e o universo está em mim. porra, quer coisa mais linda que se enxergar como poeira de estrelas? Precisamos começar a agir como tal.”

O Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção do suicídio gratuitamente. Acesse: www.cvv.org.br.

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