Ainda que você não conheça o termo, você certamente já se deparou com uma Manic Pixie Dream Girl (ou MPDG), no cinema, na TV ou na literatura. Fofa, engraçada, esquisita, adorável e diferente, ela quase sempre vem com um cabelo colorido, um sorriso infinito um gosto musical excêntrico e uma saia rodada. E se você logo visualizou Zooey Deschanel, nenhuma surpresa.

A Summer de 500 dias com ela e a Zoe de Sim,Senhor engrossam uma lista de personagens que incluem desde Annie de Annie Hall, Holly Golightly de Bonequinha de Luxo, a Sam de Hora de Voltar, Ramona Flowers de Scott Pilgrim contra o mundo, Clementine de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças e tantas outras. Figuras que em menor ou maior grau perpetuam um determinado estereótipo na questão da representação feminina.

Mas tá, qual é o problema de ser esquisita e fofa?

Para refletir sobre a problemática em torno desse tipo de personagem, é preciso entender como a definição desse estereótipo surgiu. O termo foi criado pelo crítico Nathan Rabin em uma crítica sobre o filme Tudo Acontece em Elizabethtown:

“A Manic Pixie Dream Girl existe unicamente na imaginação febril de roteiristas-diretores sensíveis para ensinar jovens homens profundos, cismados e sentimentais a aproveitar a vida e seus infinitos mistérios e aventuras.”

E é aí que mora o problema. A utilização da MPDG não como um personagem bem desenvolvido, mas como um acessório ao plot do protagonista masculino. Não existe demérito algum em ser esquisita e fofa, o que existe é um problema de ser assim única e exclusivamente para mudar a vida de um cara problemático que precisa aproveitar melhor a vida.

Do ponto de vista de construção de uma história, seja por meio da jornada do herói ou de outra estrutura narrativa, o que ocorre é que ao final da história o personagem está diferente do que era no início, tendo aprendido ou não com seus erros e atitudes e tornando-se alguém melhor ou pior. E isso normalmente não acontece com as MPDGs.

A falta de desenvolvimento dessas personagens faz com que ao final da história a evolução seja percebida apenas nos homens cujas vidas elas mudaram, e quase nunca nelas.

A idealização da Manic Pixie Dream Girl

A utilização dessas mulheres adoráveis e cheias de vida pura e simplesmente para dar um propósito às –comumente medíocres – vidas dos homens também evidencia uma questão pura e simples: a Manic Pixie Dream Girl só existe na cabeça deles.

Ela costuma ser retratada não como uma pessoa com seus anseios e defeitos, medos e desejos, mas como uma idealização da garota perfeita, que tem tudo para ser o amor de sua vida.

Scott Pilgrim vê Ramona Flowers como a garota ideal que precisa ser conquistada a todo custo porque sim. O interesse dele vem todo de uma idealização, não de conversas, de convívio ou de algo que realmente construa o sentimento de Scott por ela.

Ao visualizar suas MPDG como modelos supremos e sem defeitos, os homens solitários em busca de alegria acabam eventualmente – e momentaneamente – quebrando a cara ao se depararem com uma realidade diferente dos seus sonhos.

Em 500 dias com ela, Tom não consegue entender como romance que era perfeito na cabeça dele pode acabar. E grande parte dos expectadores não consegue entender como Summer pode largar o “cara legal”. Uma percepção que o próprio Joseph Gordon-Levitt, intérprete de Tom considera errada:

“… eu encorajaria qualquer um que ficou do lado dele na história, a ver o filme novamente e analisar como ele é egoísta. Ele desenvolve uma obsessão levemente delirante sobre uma garota para quem ele projeta todas as suas fantasias. Ele acha que o sentindo da vida dele estava nela. Isso é ser egoísta!”

Dessa forma, filmes como Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças e de certa forma o próprio 500 dias com ela, podem ser percebidos como uma certa desconstrução do ideal da MPDG, quando vistos a partir da abordagem de como a idealização dessas mulheres é irreal e errada.

“Muitos caras acham que eu sou um conceito e que eu os completo, ou que eu vou mudar vida deles. Mas eu sou só um garota ferrada procurando pela minha paz de espírito. Não me encarregue da sua.”

“Você não é como as outras”

Para tornar essa representação da Manic Pixie Dream Girl ainda mais complicada, grande parte do brilho e do encanto delas vem da insuportável afirmação de que “não são como as outras garotas” ZZzzzZZ…

Não me entenda mal, é legal buscar algo autêntico e próprio,  mas a frase revestida de romantismo e adoração, no fundo quer dizer basicamente que aquela mulher se aproxima mais das características e percepções atribuídas a homens, ou seja, é um recado de “você só é legal porque age como um homem”. Nada problemático, né?

Seja a garota dos seus próprios sonhos

Amelie Poulain tem os requisitos de uma típica de uma Manic Pixie Dream Girl: é diferente, cheia de vida, adorável e excêntrica. Mas ainda que encontre um par romântico em sua história, não é isso que a define.

A personagem é um bom exemplo de como não são as características de uma Manic Pixie Dream Girl que tornam o estereótipo problemático, mas sim o modo como a personalidade delas só é trabalhada em favor da mudança nos homens.

É sim revigorante ver retratadas em filmes, séries e livros, mulheres que estão longe de um estereótipo de Femme Fatale, por exemplo. Mas é inútil sair de um estereótipo criado para agradar o público masculino e cair em outro.

Por fim, não é errado se identificar com as características ou com o carisma das Manic Pixie Dream Girls, só não esqueça nunca que você é a protagonista de sua própria história, e que se for pra ser a garota dos sonhos de alguém, seja a dos seus!

Ilustração da Cartumante que inspirou esse texto

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