Ser nerd sempre foi estar no grupo dos desajustados, daqueles que gostam ou fazem coisas “estranhas”, dos diferentes. E mesmo que ao longo dos anos o termo tenha aos poucos perdido a alcunha pejorativa para se tornar algo socialmente aceito e legal, nós mulheres ainda somos estranhas nesse ninho.

Ser mulher e ser nerd é maravilhoso, mas também é um desafiador teste de paciência e de persistência. Ao mesmo tempo em que viramos o troféu da “namorada perfeita que gosta das mesmas coisas que você, cara”, também somos as “vadias burras e carentes por atenção” se metendo em um universo tradicionalmente masculino.

Usar uma camiseta de algum personagem que gostamos ou dizer que somos fãs de determinada franquia pode ser o suficiente para sermos taxadas de poser e seguidoras de modinhas. Aí precisamos provar que sabemos a dinastia completa dos Targaryen, a contagem de midi-chlorians da galáxia inteira, a história de origem do Homem Triatlo, que somos fluentes em Klingon, e que entendemos até a cronologia dos X-Men no cinema. E tudo isso nem sempre é suficiente para que sejamos aceitas como “nerds de verdade”.

Exagero? Vasculhe as discussões em qualquer portal ou canal de entretenimento e cultura nerd para ver a misoginia que permeia esse universo. Ou melhor, pergunte a qualquer gamer quantas vezes ela usou nomes masculinos para jogar online em paz.

Pai faz apelo à comunidade de “Overwatch” para sua filha jogar sem assédio (Uol Jogos)

Aproveite e pergunte também como – mesmo jogando tão bem quanto os garotos – uma menina é impedida de participar de times mistos e ainda ouve da organização de torneios desculpas como “Imagine você um pai de uma menina, e ela no meio de 4 homens dentro de um carro indo viajar para um evento. Desagradável, não?”

‘League of Legends’: Organização recusa time misto afirmando que existem regras impedindo mulheres no competitivo (Espn)

Afinal, seja nos quadrinhos ou nos jogos, mulher boa é aquela com a maior bunda, o menor uniforme, os peitos mais balançantes ou as poses mais ginecológicas. E ai de quem reclamar, afinal “são produtos feitos para homens”, “sempre foi assim”, “sai daqui, feminazi!”

Mas a objetificação e a hipersexualização de personagens da cultura nerd não só incomoda muitas mulheres, como também legitima o assédio às cosplayers. Passadas de mão, cantadas obscenas e até lambidas estão entre as coisas pelas quais você pode passar se resolver ficar meses se dedicando a uma fantasia de algo que gosta muito. E não esqueça: não reclame. Você pediu.

Cosplayers mulheres relatam assédio sexual: ‘Passam a mão na hora da foto’ – (G1)

‘Pânico na Band’ é banido da Comic Con após lamber participante – (Folha de São Paulo)

Ser mulher e ser nerd também é comprar roupas na sessão masculina, porque algumas lojas ainda insistem que tudo que podemos querer são flores ou princesas. É passar meses revirando cada loja em busca de um colecionável da personagem feminina. Afinal, mesmo que ela seja a protagonista, quem vai querer boneco de mulher, né?

Star Wars – O Despertar da Força: Linha de bonecos não inclui Capitã Phasma e a protagonista Rey – (AdoroCinema)

E se o protagonismo feminino começou a crescer nas franquias nerds nos últimos anos, também ficou evidente a insatisfação e a completa fúria de alguns homens diante disso. Cresceram as reclamações de que tudo é “mimimi feminista” e o choro de que as mulheres estão “roubando a galáxia deles”, ou de que “infâncias estão sendo destruídas”.

Mas pera… O discurso não era de que o gênero não importava quando as mulheres pediram por mais representação no cinema, na tv e nos quadrinhos? Se passamos tantos anos nos identificando com personagens masculinos, é tão difícil para os homens sentir a mesma empatia por heroínas e vilãs mulheres?

Imagem ilustrativa de como Caça Fantasmas destruiu muitas infâncias

Mas se é tudo é tão difícil e tão misógino por que insistimos? Por que ainda somos nerds?

Porque gostar das coisas que gostamos faz parte de quem somos. E porque não são trolls da internet ou pseudo amigos que determinam o quem podemos ser ou o que podemos fazer.

Porque ser mulher e ser nerd é crescer com uma bruxa discriminada que usa a inteligência para ajudar os amigos e o mundo mesmo sem ser A Escolhida. É ver uma jovem destemida salvar o pai e a China e uma adolescente caçar os mais terríveis vampiros.

Ser mulher e ser nerd é saber que um dia uma princesa de Alderaan nos mostrou que é possível liderar uma rebelião. Que uma tenente pode usar o medo e a coragem para bater de frente com um xenomorfo assassino e que outra tenente pode estar na ponte de comando, audaciosamente indo onde ninguém jamais esteve. É ver uma mulher marcada pela vida conduzir uma máquina de guerra em busca de esperança e redenção.

E se vibramos e nos emocionamos quando uma catadora de sucata empunha um sabre de luz ou quando uma escudeira disfarçada derrota o líder dos Nazgul, não é porque nos achamos superiores aos homens ou porque odiamos personagens masculinos. É porque sabemos o quanto representatividade importa e o quanto exemplos nos marcam.

E seja nas praias de Temyscira ou numa sala de cinema, no senado de Naboo ou na frente de um computador, a caminho de Westeros ou debruçada sobre um livro, é nessa hora que temos a certeza de que podemos ser a heroína de nossa própria história.

2 comentários em “Sobre ser mulher e ser nerd

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