Pode demorar bem mais para o Wolverine, mas o peso da idade um dia chega. Na decadência física e emocional do mutante não são apenas as cicatrizes do corpo que não se recuperam mais como antes. A culpa e a dor de uma vida cheia de mortes, sangue e perdas assombram um Logan velho e cansado, que com uma tosse incessante e uma garrafa na mão só consegue enxergar um caminho para a paz.

Mas em Logan, essa busca por paz não diz respeito apenas ao personagem, mas também a Hugh Jackman, que depois de 17 anos e 9 filmes entrega em seu último longa o Wolverine que os fãs – e provavelmente ele – tanto esperaram. Seja no sangue que enfim jorra e mostra as reais consequências de se lutar com garras afiadas de metal, nos momentos de fúria incontrolável ou na postura por vezes animalesca, o filme finalmente mostra a violência e a brutalidade do Carcaju.

Muito embora essa violência seja usada a favor da história, não é só nas grandes quantidades de sangue e corpos dilacerados que o filme mostra um avanço muito significativo na representação de Logan. Jackman também imprime uma série de nuances na amarga e decadente situação de Wolverine e, sobretudo, nas relações que ele relutantemente constrói ao longo do filme.

E se a idade chegou para Logan, o que dizer do Professor Xavier que já passou dos noventa e mostra sinais de uma dolorida deterioração não só do corpo mas também da mente. Em uma memorável atuação de Patrick Stewart acompanhamos a triste evolução de uma doença degenerativa no cérebro mais poderoso do mundo e as avassaladoras consequências disso.

Em um mundo em que os mutantes não nascem mais e os poucos que sobraram  vivem escondidos ou perseguidos, Logan e Xavier não estão unidos apenas pelo cansaço do tempo, mas por uma tocante e bela relação que há muito tempo deixou de lado as convenções, mas que sobrevive no respeito. Uma ligação que é ao mesmo tempo de pai e filho, mas também de velhos amigos, em que o Professor xinga e delira, Logan protege e se irrita, e toda a força das decepções e esperanças se acentua quando uma nova mutante cruza os seus caminhos.

Criada a partir de experimentos genéticos, Laura, a X-23, é uma menina calada que para Xavier é uma centelha de esperança, enquanto para Logan é um incômodo retrato do que ele foi um dia.

Interpretada de maneira fantástica pela atriz espanhola Dafne Keen, Laura passa mais da metade do filme sem dizer uma única palavra. Seu desafiador e curioso olhar é suficiente para que possamos entender a intensa criança que fará com que Wolverine e Xavier partam em uma jornada para que ela escape dos mercenários que a caçam.

Com inspirações em filmes como Mad Max, Filhos da Esperança e até mesmo no jogo The Last of Us, o longa do diretor James Mangold utiliza temáticas e cenários típicos dos filmes de faroeste para criar um road movie que não deixa de dialogar com questões como a dos refugiados e da busca pela utopia de um lugar melhor.

Tudo isso resulta em um longa que se aproxima muito mais dos dramas de ação do que dos filmes de super-herói – ainda que o terceiro ato contenha muitas cenas que evidenciam tanto os poderes de Logan quanto os de Laura. Esse distanciamento, embora possa incomodar os fãs que anseiam por mais elementos dos quadrinhos, mostra que é possível explorar as histórias oriundas das HQs de um modo novo e totalmente diverso do que foi visto, e traz um novo frescor para os filmes do gênero.

Logan não é isento de defeitos, e a presença de um determinado “personagem” que soa como um fanservice desnecessário é a maior prova disso. Mas o filme tem muito mérito em apostar em uma história que não busca salvação do universo ou uma trama grandiosa demais dentro de sua proposta, e que acerta em abordar o crescimento e os desdobramentos de relações familiares e, sobretudo, humanas.

O filme traz sim muitos elementos que os fãs esperavam ver na derradeira jornada do Carcaju nos cinemas. Mas acima de tudo, Logan faz de modo sujo e visceral um retrato doído e emocionante de alguém sem ilusões e esperanças, de um homem que finalmente tem  a chance de dizer a alguém que é possível ser melhor do que ele, que é possível ser diferente e enfim encontrar o que procura em seu último adeus.

(Ps. Não há cena pós-créditos. E considerando o belíssimo plano que encerra o filme, não faria sentido algum.)

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