Sob a luz do luar garotos negros parecem azuis”… ou seria “tristes”?
Seja na subjetividade da cor que permeia a fotografia e o figurino do filme ou na clara solidão de seu protagonista, a dubiedade do termo “blue” reflete o delicado lirismo com que Moonlight: Sob a Luz do Luar – adaptação da peça In Moonlight Black Boys Look Blue – acompanha a vida do jovem Chiron em busca de sua identidade.

Com temas urgentes e atuais como a criminalidade, o preconceito, as condições sociais e a sexualidade abordados de uma maneira intimista e bela, o longa do diretor Barry Jenkins torna-se significativo e forte em sua temática, ao mesmo tempo em que apresenta uma reflexão atemporal e um profundo frescor cinematográfico.

Ao contar a história de alguém comum, mas ao mesmo tempo único, Moonlight não se baseia em reviravoltas ou grandes eventos, mas em gestos e olhares, em pequenos acontecimentos que refletem a linha tênue entre quem somos em nossa essência e quem nos tornamos a partir das experiências que vivenciamos e das pessoas com as quais nos relacionamos.

Quando somos apresentados pela primeira vez a Chiron (Alex Hibbert), nos deparamos com um menino franzino de olhar assustado, que tenta fugir em silêncio da hostilidade da mãe viciada (Naomie Harris) e dos socos e pontapés dos valentões da escola que o insultam de algo que ele ainda não sabe o que significa.

Em sua silenciosa solidão, Chiron encontra no traficante Juan (Mahershala Ali)  a figura paterna que nunca teve e que vai moldar de certa maneira toda a sua vida. Embora tenha uma curta participação, Ali justifica sua indicação a tantos prêmios  dando a Juan uma humanidade sem igual, sobretudo ao perceber o quanto de culpa tem em relação ao sofrimento do garoto pelo qual se afeiçoou.

Após o primeiro corte temporal do filme, encontramos Chiron na adolescência (Ashton Sanders) e o aprofundamento de sua relação com o amigo Kevin mostra como a questão da sexualidade, sobretudo a homossexualidade, pode ser trabalhada de maneira doce e complexa.

Por fim, em mais uma passagem de tempo, temos uma visão de Chiron na vida adulta (Trevante Rhodes) e percebemos o quanto todas experiências que ele viveu o transformaram em algo ao mesmo tempo esperado e inesperado; em alguém que ao tentar fugir do passado também foge de si mesmo.

Essa divisão de Moonlight  em três momentos distintos da vida de Chiron não faz concessões ou apela para flashbacks e deixa para o espectador a tarefa de preencher as lacunas do que não foi dito. Longe de atrapalhar, isso só enriquece a construção do personagem, evidenciando o excelente trabalho de Hibbert, Sanders e Rhodes em convencerem como a mesma pessoa, apesar das cada vez mais evidentes mudanças físicas de Chiron.

Soma-se ainda à beleza de Moonlight, uma competente fotografia que acompanha a evolução do personagem, além de um interessante e irrequieto movimento de câmera que aumenta a claustrofóbica sensação de desamparo nos momentos em que Chiron é de alguma forma acuado. Tudo isso ao som de uma inesperada trilha sonora que mescla perfeitamente grandes doses de clássico com pitadas de moderno – e que inclui Caetano Veloso cantando em espanhol.

O resultado de tudo isso é um dos mais belos e poéticos filmes da temporada de premiações que consegue – como poucos – unir uma importante e atual reflexão social com um lirismo e uma sensibilidade brilhante e silenciosa como a luz do luar sobre o oceano.

 

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