Em tempos de intolerância e ações contra cidadãos de origem muçulmana, uma ilustração da artista Marynee Lahaye foi o que me fez escrever esse texto. Um tributo à Miss Marvel Kamala Khan e sua importância para a representatividade nos quadrinhos.

Querida Kamala,

A gente te conheceu em 2014, numa época em que a Marvel começou a perceber que diversidade é legal pra caramba e que era possível – e necessário – apostar em heróis com os quais um número cada vez maior de pessoas pudesse se identificar.

Criada por uma editora de origem americano-paquistanesa como você (Sana Amanat), e roteiro de uma estudiosa do islamismo (G. Willow Wilson), você mostrou com ironia e bom humor que era possível tratar da cultura muçulmana sem estereótipos.

Mas você não nos conquistou só pela diversidade de sua origem. Você é gente como a gente, Kamala. Você é nerd, adora os vingadores, cria suas fanfics e shippa os super-heróis.  Você passa pelos dramas que todo mundo passa ou já passou na adolescência, você se sente estranha e sonha em ser alguém mais interessante e descolada.

A gente não costuma esbarrar numa Névoa Terrígena e ganhar poderes como você, mas a gente sabe como é desejar algo com todo o coração e depois não saber como lidar com as responsabilidades e consequências.

Também  criamos modelos e padrões e veneramos nossos ídolos. Dá vontade de ser maravilhosa como a Carol Denvers, poderosa e bem resolvida sob o manto de Capitã Marvel – ainda que seja o uniforme politicamente incorreto com botas acima do joelho. Mas aí você descobre que uniformes de super-heróis não vem com roupas de baixo, e percebe principalmente que ser você mesma é mais divertido.

Mais do que lidar com partes do corpo que crescem ou diminuem e combater o crime de burkini, é difícil ser filha de imigrantes paquistaneses e viver dividida entre seus costumes e o mundo que te rodeia. Tão legal quanto ser a Miss Marvel com superforça e fator de cura é ser uma jovem divertida e esperta. E se Kamala é “perfeição” em árabe, você é perfeita do jeito que é.

Mas isso não quer dizer que você não precise crescer. Você lutou ao lado da heroína que sempre admirou, mas também acabou ficando do lado oposto quando discordou de suas decisões.  Você assumiu o desafio de ser uma Vingadora , e abraçou a parceria com o Dentinho (sim, a gente sabe o quão legal é ter um buldogue gigante com superpoderes como amigo).

E acima de tudo, querida Miss Marvel, com uma mensagem  descontraída de representatividade e aceitação você não apenar se tornou uma das mais queridas heroínas dessa novíssima Marvel, mas deixou claro que “não está  aqui para ser uma versão menor de alguma outra heroína, está aqui para ser a melhor versão da Kamala”.

E se na década  de 1960 um desajustado Peter Parker mostrou que qualquer um pode ser um super herói,  você, Kamala, comprovou décadas depois que qualquer um pode ser quem quiser.

Obrigada, Kamala.

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