Esse texto contém spoilers pesados do plot central do filme.

Passageiros não é exatamente um filme ruim, é um filme errado. Errado na indecisão de ser uma pretensiosa e intimista ficção científica ou um drama romântico coberto de clichês – e adivinha para que lado o longa pende no fim das contas… E errado principalmente por ser mais uma produção de Hollywood a romantizar o abuso.

O longa conta a história do engenheiro Jim Preston (Chris Pratt), um dos 5 mil passageiros a bordo da nave Avalon que segue em uma viagem de 120 anos até um planeta colonizado pelos humanos. Por um problema técnico, a câmara de hibernação de Jim é danificada e ele acorda 90 anos antes do previsto.

Começa então a desesperadora solidão de Jim, que é de longe a parte mais interessante do filme. Emulando elementos de longas como Perdido em Marte, acompanhamos os esforços do protagonista para voltar a dormir. Das conversas com o robô barman Arthur (Michael Sheen), as bebedeiras, o pedido de ajuda enviado à Terra que demorará décadas para ser respondido até uma tentativa de suicídio, tudo contribui para a angústia solitária de Jim ao longo de mais de um ano.

Mas em um belo dia, Jim esbarra na câmara de hibernação da escritora Aurora Lane (Jennifer Lawrence) e aí Passageiros começa a descabar. O engenheiro se torna obcecado por ela, acessa seus arquivos e decide que ela é a mulher perfeita para ele. Jim passa os meses seguintes no dilema de acordar ou não sua Bela Adormecida. Percebam que a referência do nome de Aurora ao clássico conto de fadas é sutil como um tijolo.

Obviamente ele acorda Aurora e não conta nada. Desperta não uma pessoa com conhecimentos que podem ajudá-lo a consertar as coisas ou algo do tipo, acorda uma mulher desconhecida porque ela é bonita e atraente e capaz de tirá-lo de sua solidão. No fim das contas, Jim acorda Aurora simplesmente porque ele pode.

Mas todos os dilemas morais sobre o limite do desespero humano, sobre o fato dele destruir o futuro dela por um capricho pessoal e sexual, tudo isso são questionamentos que apenas nós enquanto público – com o mínimo de bom senso – temos. Porque o filme em si não se preocupa em aprofundar as consequências e o quão errado e egoísta é o ato de Jim.

Passageiros prefere explorar a partir daí as ações do “mocinho” para conquistar sua “amada” e apostar na química física de Pratt e Lawrence, que nunca funciona muito bem e é tão ou mais mecânica que o robô que serve os drinks da nave.

Lá pelas tantas Aurora descobre a verdade e mais uma chance de questionar as escolhas de Jim é logo jogada fora. A escritora obviamente se desespera, se enoja e se afasta do homem responsável por acabar com seu futuro, mas o roteiro rapidamente cria uma situação de perigo que obriga a união dos passageiros despertos para salvar a nave.

Passageiros então se foca na ação, com toda a miríade de explosões e correria que tem direito. E no meio de tudo isso, Aurora perdoa Jim, afinal o filme também quer que você perdoe ele. Mas o longa não se contenta com o simples perdão, já que ela precisa voltar para ele, e o filme precisa enfiar todos os clichês românticos de Hollywood, com frases aleatórias e vergonhosas como “se você morrer eu morro” e “volte por mim” ZzzzzZZ…

O final é, pasmem, praticamente um “felizes para sempre”, com Aurora escolhendo ficar com Jim, afinal, de acordo com filmes como Passageiros, mulher perdoa tudo, né?

Com seu ar pretensioso, sua produção grandiosa (justiça seja feita, a nave Avalon é belíssima e a cena da piscina é fantástica) e escolha mercadologicamente precisa de dois dos atores mais “queridinhos” dos últimos tempos, Passageiros tem tudo para ser um sucesso de bilheteria.

Pena que além de uma história cheia de clichês, o filme presta o desserviço de reforçar ideias abusivas, de dizer que tudo bem ele achar que tem direito sobre a vida dela. A escolha pelo ponto de vista de Jim e não de Aurora é clara: é com ele que temos que simpatizar, é ele que precisamos compreender e perdoar. Afinal, quem pode julgar os atos de um homem desesperado, não é mesmo? Azar daquela que ele decidir que é a mulher da sua vida.

4 comentários em “Passageiros não é uma história de amor, é um desserviço

  1. Poxa, que pena. Pelo trailer parecia super interessante, pena que tomou esse caminho… Pena ainda apostarem no amor platônico e abusivo pra fazer filmes. Obrigado por me fazer não jogar dinheiro fora o/

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  2. Moça, o Jim estava desesperado, claramente ele estava beirando a depressão antes de acordar a menina. Como o carinha da nave disse “todo aquele que está se afogando tenta puxar outro pra tentar se salvar”. O que ele fez foi errado? Claro que foi, mas está muito longe de ser um relacionamento abusivo. O que você faria no lugar dele se com as credenciais que ele possuia não podia nem comprar um café melhorzinho?

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