“É como conversar com um amigo que você não via há muito tempo…” ouvi alguém dizer ao final da sessão de Animais Fantásticos e Onde Habitam. Verdade seja dita, voltar ao mundo mágico criado por J.K. Rowling  é o tipo de reencontro em que se percebe o quanto você e seu amigo amadureceram, o quanto mudaram ou evoluíram e como apesar de tudo isso e do tempo, a amizade continua lá.

Em sua estreia como roteirista, J.K. Rowling expande a mitologia que criou, ao mesmo tempo em que dialoga perfeitamente com toda uma geração. Uma legião de fãs que no fundo ainda espera por sua carta de Hogwarts, mas que já vive as alegrias e os desafios do mundo adulto.

Quinze anos depois da estreia de Harry Potter e a Pedra Filosofal no cinema, o espectador não precisa mais ser gentilmente conduzido ao mundo bruxo. As metáforas sobre questões como preconceito presentes na saga d’O Menino Que Sobreviveu são muito mais claras. As discussões sobre intolerância, xenofobia, e acima de tudo, sobre o poder destrutivo da repressão coletiva e individual mostram que embora esse seja um filme de época, sua mensagem é mais atual do que nunca.

A escolha pelos Estados Unidos pós Primeira Guerra e pré Depressão de 29, mostra que Animais Fantásticos e Onde Habitam não apenas expande o universo bruxo, como também se relaciona com a história do mundo trouxa – ou não-maj. E aí reside um dos maiores méritos do filme: a interação entre bruxos e não bruxos.

Por mais que houvessem pequenos vislumbres disso nos últimos volumes de Harry Potter, nunca antes na história do universo de J.K. Rowling foi possível ver bruxos e trouxas juntos dessa forma, para o bem ou para o mal.

Mais do que criaturas fantásticas ou feitiços incríveis, a imagem que durante os trailers mais me chamou atenção para o potencial da nova franquia foi a de policias trouxas erguendo suas armas ao mesmo tempo em que aurores bruxos empunhavam suas varinhas. Trata-se de algo novo e turbulento, muito diferente do que foi visto dentro dos portões de Hogwarts e na luta contra Voldemort. Uma abordagem nova e a prova de que Animais Fantásticos e Onde Habitam pode ser muito mais que um mero spin-off de Harry Potter.

O novo filme também se difere da franquia anterior por seus personagens. Em uma atuação delicada e cheia de inocência de Eddie Redmayne, conhecemos o magizoologista Newt Scamander, uma figura retraída e excêntrica que claramente se dá melhor com suas fantásticas criaturas do que com humanos em geral – bruxos ou não. Sem a aura e peso de ser o escolhido ou a figura criada para o sacrifício final, Newt é um frescor novo para esse mundo de magia, uma nova abordagem para a figura do “herói”.

Ao seu lado, Jacob Kowalski (Dan Fogler) faz história como o primeiro trouxa – ou não-maj, na nomenclatura americana – a compor o grupo de protagonistas de uma história do mundo bruxo. Carismático e absolutamente divertido, o homem comum que sonha em abrir uma padaria rapidamente conquista e emociona o expectador.

Em uma abordagem muito diferente de Hermione, Gina, Mcgonagall ou qualquer outra personagem feminina da saga Harry Potter, as irmãs Tina (Katherine Waterston) e Queenie (Alison Sudol) completam o quarteto de protagonistas. Duas personagens muito diferentes entre si, que trazem consigo um enorme leque de nuances, dilemas e características. Queenie inclusive é uma das mais gratas e graciosas surpresas do filme.

Reforçando ainda mais a já conhecida capacidade de J.K. Rowling de criar complexos personagens, juntam-se ao elenco figuras interessantes como o auror Percival Graves (Colin Farrell), a fanática (e perturbadora) Mary Lou (Samantha Morton) e o misterioso Credence (Ezra Miller), personagem fundamental para a trama.

Porém, o ponto discrepante no elenco é de fato Johnny Depp. Mesmo se ignorarmos os fatores controversos de sua escalação (tipo ele ser um abusador!), os poucos segundos em que o ator aparece como Gerardo Grindelwald não são suficientes para criar uma opinião sobre sua atuação, mas deixam claro que Depp não combina com o papel. Sua cara simplesmente não orna com a figura do maior e mais temido bruxo das trevas.

Não se pode esquecer, é claro, dos animais fantásticos do título. Os competentes e deslumbrantes efeitos especiais do filme dão vida a criaturas já conhecidas dos leitores de Harry Potter como pelúcios, erumpentes e tronquilhos; e animais novos e igualmente encantadores como ocammys e o pássaro trovão. Além disso, o assustador Obscurus, mostra-se não apenas visualmente incrível, como também fruto de um conceito novo e bastante interessante dentro da história do filme.

Os personagens cativantes, os efeitos impecáveis (até o 3D é bem aproveitado), a mensagem engajada e a força de um roteiro original fazem de Animais Fantásticos e Onde Habitam um dos mais encantadores filmes do ano e deixam claro que o potencial da franquia é enorme. Basta dizer que a história dos cinco filmes deve se estender até 1945, ou seja, é quase certo que teremos Segunda Guerra Mundial e mundo bruxo juntos no cinema.

Resta saber se haverá folego e fluidez suficientes para intercalar as viagens de Newt Scamander em busca de seus animais fantásticos com os conflitos do mundo bruxo e não bruxo e com o terror inspirado por Grindewald na época.

A julgar pelo primeiro filme, o desafio é grande, mas a recompensa pode ser encantadora e surpreendente como o mundo de fantasia escondido na mala de um viajante.

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