Se você já leu os livros de Harry Potter e assistiu sua adaptação cinematográfica, provavelmente já manifestou o desejo de desligar a tv, rasgar a tela do cinema ou xingar a plenos pulmões a injustiça dos filmes com a personagem Gina Weasley.

Se você só assistiu a versão do cinema, certamente já ouviu alguém reclamar e não entendeu direito porque as pessoas se importam tanto com uma personagem tão sem graça na tela.

Se você não sabe o que diabos é Harry Potter e não entendeu nada do que estamos falando, talvez  seja a hora de abandonar a caverna em que você viveu boa parte dos anos 2000.

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Ginevra Molly Weasley, a Gina (Ginny, no original) é a mais nova dos sete irmãos Weasley. Bruxa forte e talentosa, é uma excelente jogadora de quadribol, um dos mais ativos membros da Armada de Dumbledore, e uma das figuras mais determinadas e vivas dos livros de J.K. Rowling. Nos filmes, sua força e independência são praticamente obliteradas e seu papel se resume ao interesse amoroso de Harry Potter. Mas veja só… nem esse relacionamento é explorado direito.

A culpa, cabe dizer, não é da atriz Bonnie Wright – como muitos fãs gostam de apontar. Afinal, não dá pra fazer muita coisa com um roteiro que te dá meia dúzia de falas e uma das cenas mais vergonhosas e desnecessárias de toda a saga cinematográfica.

Ok. Passado o cadarço imperdoável (e peço desculpas por reavivar essa memória desagradável), vamos falar de coisa boa. Dos fatos que tornam a Gina dos livros tão especial e tão necessária para a franquia que moldou toda uma geração.

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Crescimento pessoal e superação

A evolução de Gina ao longo dos livros tem sim muito a ver como o modo como ela superou a paixonite infantil que nutria por Harry e como seus sentimentos evoluíram para um relacionamento saudável. Mas essa não é a parte mais importante do arco de superação e crescimento da personagem.

Em seu primeiro ano em Hogwarts, durante os eventos de A Câmara Secreta, Gina passou meses sendo possuída pelo pedaço da alma de Voldemort que vivia no diário de Tom Ridlle, meses fazendo coisas horríveis das quais não conseguia se lembrar.

Depois de ser salva por Harry, Gina não permaneceu no papel de donzela em perigo – como seria fácil seguir, mas passou a acreditar que precisava se defender sozinha, que precisava lutar. E talvez por isso, a partir de A Ordem da Fênix, tenha se tornado uma das mais dedicadas integrantes da Armada de Dumbledore.

Depois de ter sido POSSUÍDA POR VOLDEMORT AOS 11 ANOS, Gina também poderia ter assumido uma atitude mais retraída e assustada. Mas pelo contrário, ela lidou com seus traumas e tornou-se uma pessoa alegre, ardente e engraçada.

Bruxa poderosa e jogadora profissional de quadribol

“- É, tamanho não é garantia de potência – disse Jorge. – Olhe só a Gina.
– Como assim? – perguntou Harry.
– Ela nunca lançou em você a azaração que usa para rebater bicho-papão?”

Ao longo dos livros, em vários momentos é mencionado o modo como Gina é capaz de executar feitiços fortes e precisos. Sua habilidade mágica faz inclusive que ela seja convidada para o clube do Slughorn, além é claro, de auxiliá-la nas TRÊS BATALHAS em que participou: a do Departamento dos Mistérios em A Ordem da Fênix, a de quando os comensais invadem Hogwarts no dia da morte de Dumbledore em O Enigma do Príncipe, e a Batalha de Hogwarts em As Relíquias da Morte.

Além de sua perícia em feitiços, Gina também é uma excelente jogadora de quadribol. Quando Harry é expulso do time e Grifinória fica sem apanhador, é ela que o substitui – e vence os jogos que participa. E é nesse momento que descobrimos que desde os seis anos de idade, a mais jovem dos Weasley arrombava o galpão de vassouras dos irmãos e treinava sozinha. Não fica claro se seus irmãos não a chamavam para jogar porque ela era menina ou porque era mais nova, mas fica bem claro que isso não foi um problema para ela.

Gina passa a jogar como artilheira e segue no quadribol depois de formada. Ela vira jogadora profissional do famoso Harpias de Holyhead, o único time de quadribol formado exclusivamente por mulheres. Depois de alguns anos, ela deixa o time e passa a ser correspondente especial de esportes do jornal Profeta Diário.

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Amiga leal

Uma característica de Gina, mostrada de maneira mais sutil, é modo como ela é leal aos amigos, independente deles serem “descolados” ou não. Mesmo sendo popular na escola, ela não deixa de lado Neville e Luna, figuras desajustadas e por vezes discriminadas em Hogwarts.

Gina inclusive age de modo bem mais decente com Luna que do que o trio Harry, Rony e Hermione quando conhecem a sonhadora Lovegood.

“Harry se largou no banco e gemeu. Gostaria que Cho o encontrasse sentado com um grupo muito legal, se acabando de rir de uma piada que tivessem acabado de contar; e não ali, com Neville e Luna Lovegood, segurando um sapo e pingando escrofulária”.

Gina, Luna e Neville seriam mais tarde os únicos membros da Armada de Dumbledore a atender o chamado de Harry na noite da morte do diretor. E no ano em que Hogwarts ficou sob o domínio dos Comensais da Morte, foram os três que encabeçaram as revoltas contra a ordem imposta na escola – sofrendo vários castigos por isso.

Relacionamento com Harry e sexualidade

“- Certo, disse Gina, lançando os longos cabelos ruivos para trás e encarando Rony, aborrecida -, vamos entender de uma vez por todas. Não é da sua conta com quem eu saio e o que eu faço, Rony…
– É sim! – Retrucou Rony no mesmo tom zangado. – Você acha que eu quero que as pessoas digam que minha irmã é uma…
– Uma o quê? – gritou a garota, puxando a varinha. – Uma o quê, exatamente?”

De todas as características de Gina, talvez a mais importante é o modo como J.K. Rowling trabalhou a sua sexualidade, de como a personagem mostrou para uma geração de meninas que o número de namorados que se tem não determina seu caráter e de como sua sexualidade não é motivo de vergonha.

Bem antes de conceitos como o slut shaming apontarem para o modo como as mulheres são julgadas por comportamentos ditos promíscuos, Gina Weasley mostrou que ninguém tem o direito de julgar o que ela faz ou deixa de fazer com seu corpo ou com sua vida, nem seu irmão mais velho. E aí fica nítido também o recado de Rowling aos irmãos, a todos os meninos que se identificam ou não com Rony, e que precisam ver como o ele está sendo babaca com a irmã.

Gina terminou com Miguel Corner porque ele não soube perder, terminou com Dino Thomas porque ele por vezes achava que ela não podia fazer as coisas sozinhas. E o fato ter ficado no final das contas com o Harry é sim um recado de que o herói a via como alguém forte, como um igual, mas não é o que define a personagem.

A Gina dos livros – e o cinema não entendeu isso – independe da figura do Harry para ser interessante, destemida e livre. Mesmo nos anos em que ele a via apenas como a irmã do amigo, Gina não só fez a fila andar, como tocou sua vida normalmente e fez as escolhas que bem entendeu. E depois quando ficou quase um ano sem ver Harry novamente, não deixou de combater a influência de Voldemort em Hogwarts, e de lutar – literalmente – pelo que acreditava.

Então, meus caros bruxos e trouxas, Ginevra Molly Weasley está muito, mas muito longe, de ser apenas a namoradinha sem graça de Harry Potter.

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2 comentários em “Vamos falar de como Gina Weasley é incrível – e como os filmes esqueceram disso

  1. Incrível! Me abriu muito os olhos. Nunca tinha reparado nem parado pra pensar nisso. Mesmo tendo lido todos os livros mais de uma vez, nao tinha notado como a Gina é representada de outra forma nos filmes.
    Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

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