Senhor, quem chamaremos quando ninguém obedece à lei
Não tem Homem de Ferro que possa vir nos salvar?

Em dado momento da série, quando as ruas já estão mergulhado no caos e papel e a identidade de Luke Cage são questionados, o rapper Method Man fala de como é poderoso ver um homem negro que é a prova de balas e destemido. “Temos um herói por contrato e ele é negro” reforça a letra de “Bulletproof Love”, rap composto para Luke Cage e que resume bem a proposta da série do herói impenetrável das ruas do Harlem.

Terceira série da parceria entre Marvel e Netflix, Luke Cage consegue diferenciar-se  de suas antecessoras não apenas pela mudança de bairro – sai a Hell’s Kitchen de Demolidor e Jessica Jones e entra o Harlem – mas também em uma das tramas mais realistas e atuais dos heróis da Marvel.  

Mike Colter repete o seu papel de Jessica Jones e traz um Luke Cage muito diferente dos quadrinhos. Apesar de manter um pouco da breguice do personagem e trazer um dos melhores fanservices a respeito do uniforme original do Power Man, o Luke Cage de Colter obviamente deixa de lado o amarelo extravagante dos anos 70 e veste uma comum e urbana jaqueta com capuz, afinal “blusões com buracos de bala estão na moda”.

A escolha porém vai muito além do figurino realista das séries dos heróis urbanos da Marvel. Lembrando os casos em que adolescentes afro-americanos foram presos ou mortos pelo modo como se vestiam, Luke Cage abraça a ideia de mostrar que nem todos que usam um capuz são criminosos. O próprio Mike Colter disse em uma entrevista que a morte de Trayvon Martin – um jovem negro desarmado morto por um vigilante comunitário em 2012, na Flórida – foi um dos fatores que definiu o modo como ele se vestia e contribuiu para a escolha do figurino do herói do Harlem.

Com uma mensagem contundente, porém sem ser panfletária, a série dialoga perfeitamente com a recente tensão vivida nos Estados Unidos entre a polícia e a comunidade negra. Escapando dos clichês, Luke Cage apresenta o cotidiano dos moradores do Harlem em meio a disputa de poder entre gangues de negros e latinos, corrupção e impunidade na polícia e na política.

Nesse sentido, o personagem Pop, dono da barbearia onde Luke Cage trabalha, sintetiza alguns elementos essenciais para o desenvolvimento da série e o entendimento de um bairro tão característico. Pop e sua barbearia representam bem o papel do esporte na tentativa de tirar os jovens das ruas, a influência das grandes figuras do movimento negro norte-americano e o conceito de território neutro.

Seguindo o exemplo de Fisk e Kilgrave, a Marvel mostra mais uma vez que – ao contrário do cinema – sabe fazer excelentes vilões em suas séries. Em Luke Cage o antagonista da vez é Cornell Stokes, o Boca de Algodão ou Cottonmouth, interpretado por Mahershala Ali. Um explosivo chefe de gangue cuja história vai ficando mais densa e profunda ao longo dos episódios.

Também somos apresentados à  Mariah Stokes (Alfre Woodard), a prima de Cottonmouth, que encontra na política o seu espaço de conquista do poder. A vereadora do Harlem é um retrato fiel do político que usa sua origem e o apelo popular em benefício próprio – e a todo custo.

Faces de uma mesma moeda, os primos Stokes mostram os meandros do poder local e estabelecem uma linha tênue entre o legal e o ilegal, o que resulta em uma das mais interessantes relações de toda a trama. Ao mesmo tempo, as ações dos antagonistas vão criando a tensão e o mistério em torno da figura de Diamondback/ Kid Cascavel (Erik LaRay Harvey), mais uma poderosa adição à galeria de vilões da primeira temporada de Luke Cage.

Mas não foi só com os vilões que a Netflix acertou em Luke Cage. Com sutis referências a sua versão dos quadrinhos, a policial Misty Knight (Simone Missick) possui um dos arcos mais interessantes e bem construídos da série – em alguns momentos mais até que o protagonista. Uma personagem cativante e profunda, quebrável e nobre que rouba a cena com seus dramas e atitudes. Queremos mais Misty Knight, Netflix!

Aliás, sempre queremos mais Claire Temple também. A enfermeira vivida por Rosario Dawson, e que serve como ligação entre as séries, tem em Luke Cage uma participação maior do que em Demolidor e Jessica Jones. Claire protagoniza uma interessante interação tanto com Cage quanto com Misty, e conhecemos mais de sua vida e sua família. A mãe de Claire, aliás, é interpretada pela brasileira Sonia Braga, sempre maravilhosa.

Com uma incrível trilha sonora que mescla elementos do rap, soul, blues, jazz, Luke Cage mantém a qualidade estabelecida por Demolidor e Jessica Jones, mas em alguns momentos segue um ritmo um pouco mais lento que suas antecessoras – principalmente em relação à primeira temporada de Demolidor – e é de todas as três, a com menos cara de super herói.

Mas isso é ruim? Não necessariamente. Se por um lado a série pode desagradar aqueles que sentem falta de um uniforme ou de uma luta milimetricamente coreografada, por outro, Luke Cage é diferente de tudo o que a Marvel já fez.

Com seu respeito pela cultura negra, seu retrato do sistema carcerário, da polícia, da política e das ruas, a série não é apenas a extensão do universo dos Defensores, ou mais uma história de super herói. Luke Cage é a mais atual das produções da Marvel, uma história que conversa com a beleza e a brutalidade de nosso tempo.

Diferente de seu protagonista, a série não é a prova de balas. Mas assim como Luke Cage, bate forte pra caramba.

Um comentário em “Luke Cage é um poderoso retrato das ruas e do nosso tempo

  1. Merlin, muito bom o texto, preciso nas críticas e uma visão ponderada sobre a série, sua produção e roteiro. Mas como estamos na internet. segue um adendo de um leitor de quadrinhos velhos:
    Sobre a comparação série X quadrinhos vale falar sobre a “homenagem” feita ao uniforme original dele (A roupa que ele rouba do varal, junto com os acessórios da máquina que dá os poderes), O personagem Shades vem desde os quadrinhos como um dos perseguidores do Luke dentro da própria prisão juntamente com Comanche. Por mais que o envolvimento dele com a Misty Knight tenha sido feito de uma maneira interessante. Eu, enquanto leitor “dasantiga”, fico me perguntando como se reolverá isso, em vista que Misty é namorada de longa data do Daniel Rand, mais conhecido como, Punho de Ferro, que será lançado em 2017 pela Netflix.
    Luke Cage vem sendo remodelado, da mesma maneira que a cultura do Hip Hop vem se transformando ao longo dos anos. Quando criado, Luke Cage parecia saído de um show do Earth Wind and Fire, roupas espalhafatosas, adornos imensos e metalicos. Hoje, ele pode passar desapercebido pelas ruas, assim como o Hip Hop está completamente imerso na cultura cotidiana, nas músicas, nos grafities, nos maneirismos.
    Luke Cage e seus heróis de Aluguel foram uma representativadade das classes mais baixas dentro da Marvel, o grito de socorro de quem não tem a policia pra quem recorrer, ou problemas grandes o suficiente para os Vingadores serem acionados.

    E como não podemos esquecer, É graças a ele, que Nicolas Coppola adotou o nome de Nicolas Cage!

    Curtido por 1 pessoa

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