[Contém spoilers da sexta temporada]

Com 38 troféus conquistados ao longo de 6 temporadas, Game of Thrones se tornou recentemente a maior vencedora da história do Emmy. 12 dos prêmios foram só para a sexta temporada, aquela que marcou finalmente a independência do seriado em relação ao conteúdo e ao ritmo da obra original de George R.R. Martin.

Verdade seja dita, a quase completamente esquecível quinta temporada já havia começado a jornada de emancipação da série em relação aos livros, mas o fez de forma porca, com roteiros fracos que resultaram em uma das piores temporadas de Game of Thrones.

Mas aí veio a sexta temporada, que começou com alguns episódios bons, outros costumeiros enche-linguiça (presentes em cada temporada) e finalmente os incríveis últimos episódios que consolidaram, principalmente em termos visuais e técnicos, a capacidade da HBO em fazer cinema na televisão. E mais do que isso, representaram um avanço que deixa claro que a série ruma para o seu desfecho (sensação essa que os livros ainda estão muito longe de passar).

Foi um ano marcado por muito fan-service, volta de personagens, novas figuras cativantes (olá, Lyanna Mormont), e mulheres a frente do destino dos Sete Reinos e além. Uma temporada em que Game of Thrones mostrou que pode sim seguir firme e forte independente do lançamento dos dois últimos livros d’As Crônicas de Gelo e Fogo. Mas será que isso é bom para o futuro da série?

Deu boa

O fator surpresa característico da série agora também afeta os espectadores que já leram os livros e que agora estão no mesmo barco do não-faço-ideia-do-que-vai-acontecer. Muito embora isso não pareça algo que a HBO se importe, já que apesar de só ter sido possível a partir da já estabelecida comunidade de fãs norte-americanos, Game of Thrones há muito tempo c*ga pros leitores, já que foi a conquista dos mais diferentes tipos de audiência – principalmente aquela não acostumada com fantasia – que garantiu o $u$$e$$o da série.

Mas o grande mérito da sexta temporada talvez tenha sido o fato de que Game of Thrones finalmente encontrou um ritmo próprio de contar a história, atingindo uma constância narrativa que se aproxima mais da televisão e se desapega bastante do modo como George R.R. Martin conta sua história. Além é claro, de algumas das sequências mais cinematograficamente bem filmadas da história da televisão.

Também é inegável que a sexta temporada começou a fechar as muitas pontas que Game of Thrones vem deixando soltas desde a primeira temporada. Faltando apenas duas temporadas (mais curtas) estava mais do que na hora de começar a fazer isso.

Neste sentido, um dos destaques foi a resolução do maldito lenga lenga de Daenerys na Baía dos Escravos, que vinha se arrastando por umas quatro temporadas. Além da revelação sobre o passado de Jon Snow, a tão prometida volta por cima da Sansa, a vingança ao Casamento Vermelho e fato de que o bebê da Gilly – depois de umas três temporadas – finalmente começou a crescer.

Todos esses fatores foram essenciais para que Game of Thrones atingisse o seu ápice de repercussão. A série já deve muito de seu sucesso ao barulho que faz nas redes sociais, mas nunca antes na história dos Sete Reinos as tramas, mortes e revelações estiveram tão presentes em todos os trending topics e em todas as conversas de segunda-feira. Em nenhuma temporada anterior tanta gente assistiu os episódios decisivos em bares e pubs pelo mundo, como se fosse final de campeonato. Game of Thrones, mais do que nunca, é um fenômeno mundial.

Pode dar ruim

Game of Thrones, no entanto, segue com alguns de seus habituais problemas como o sumiço e ressurgimento do nada de alguns núcleos (olá Greyjoys, as pessoas mal lembravam que vocês existiam); o retorno de personagens bons que são mortos porque a série não sabe o que fazer com eles (r.i.p. Blackfish); a morte de personagens cujo núcleo sempre foi uma b*sta (pobre Doran Martell que pagou pela caquinha que é Dorne); e a completa obliteração de personagens bons que viraram nada (Jaime parece ter perdido além da mão, a personalidade).

Esses problemas, porém, ganham uma dimensão muito menor se comparados ao elefante que Game of Thrones colocou no meio da sala da sexta temporada: a ressurreição de Jon Snow. Antes que alguém esbraveje que os livros abrem precedente para volta dos mortos, – vide Beric Dondarion e Senhora Coração de Pedra -, é preciso deixar claro que no caso de Jon Snow o problema não está na volta em si, mas no modo como o personagem foi trabalhado a partir de seu regresso.

Salvo alguns curtos diálogos sobre “não existir nada do outro lado”, Jon só mudou o cabelo. Sua personalidade, suas motivações e questionamentos continuaram os mesmos. Oi? O fulano morre e volta de boas como se nada tivesse acontecido… sério HBO? Mas então para que matar o personagem além de gerar um comoção entre os fãs por um ano? Para usar uma porca muleta de roteiro baseada no juramento da Patrulha da Noite de que a vigilia só dura “até a minha morte”. Morri, flw vlw Patrulha, vou pra Winterfell porque preciso liderar a batalha foda da temporada.

A Batalha dos Bastardos foi maravilhosa, foi ótimo ver os Stark retomando o Norte e Ramsay Snow virando ração para cachorro, mas não dá para negar que no caminho para isso Game of Thrones tenha aberto inúmeras concessões ao que a própria série construiu.

Se por anos o diferencial de Game of Thrones foram os mordazes diálogos, as mortes cruas e inesperadas e o jeito não maniqueísta de encarar as atitudes dos personagens, muito disso acabou se perdendo. Os diálogos parecem finalmente perder seu espaço para as cenas de ação e o peso de perder um personagem querido já não é o mesmo, uma vez que ele pode facilmente voltar.

Mas a maior perda da série é a linha entre vilões e mocinhos, que Game of Thrones desconstruiu ao longo dos anos, e que agora está mais definida do que nunca. Foi incrível vibrar a queda dos Boltons e dos Freys e com certeza vai ser eletrizante torcer por Daenerys e todos os seus aliados contra a vilania da Rainha Cersei. Não há dúvidas disso, ainda mais que a próxima temporada também promete ser cheia de batalhas e embates épicos.

Mas lá fundo fica a saudade de uma época em que era possível ir do ódio ao amor por um personagem em um único episódio. De um tempo em que nos identificávamos e compreendíamos as motivações dos dois lados. De quando trevas e luz se mesclavam e quase todos os personagens eram realmente cinzas.

Game of Thrones segue rumo a um final que promete ser grandioso, épico e inesquecível, mas – infelizmente ou não – cada vez mais próximo das fantasias e clássicos dos quais a série um dia prometeu ser diferente.

3 comentários em “Game of Thrones botou suas asinhas de fora – para o bem ou para o mal

  1. Muito boa análise!
    Também achei muito errado a volta de Snow sem uma motivação mais clara ou alguma consequência específica. Espero que talvez a gente ainda veja algo assim.
    Mas não acho que a série vá fugir tanto de personagens cinzas. Mindinho ainda tem alguma coisa a fazer ali e talvez parte de sua estratégia inclua dividir a Sansa e o Jon. Varys faz o que faz mas se as coisas começarem a dar errado sabe-se lá o que ele pode fazer… Dorne vai se tornar mais interessante agora que se juntará a Tirrell, e o jeito como o Jaime olhou pra Cersei no último episódio pode indicar um racha aí que pode nos forçar a gostar de um à expensa do outro…
    Bem, anyway, também espero que a coisa não se dilua muito. A Daenerys também tem um grande potencial de continuar sendo fonte de ambiguidade política em suas decisões – talvez um pouco de sua imagem possa ser descontruída à medida que ela avance. Vamos ver 🙂

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    1. Pois é, Peterson. Também estou torcendo muito para que a série não fuja dos personagens cinzas, mas como não falta muito para série acabar acho que eles vão continuar simplificando e fechando as coisas mesmo. No caso do Jon e da Sansa, por exemplo, acredito que não vai dar tempo de trabalhar isso por conta de botar o Jon contra os white walkers logo. Mas vamos aguardar 😉

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  2. Adorei, muito bom ver um texto que pondera bem os rumos da série e não fica naquela empolgação como se tudo fosse lindo e maravilhoso! Eu me contorço quando leio o grito da massa de que a última temporada foi a melhor… Sério? A temporada pode ter brilhado nas cenas de ação, mas nunca que está no mesmo nível das primeiras, onde os diálogos, a força dos personagens se sobressaia as cenas de batalhas, aos dragões e a fantasia comum do gênero.

    Você reclama de algo e tem que ouvir “aah mas é uma adaptação. os livros são os livros, a série é a série”. Sim, mas mesmo reduzindo consideravelmente o conteúdo da obra original, daria pra seguir um rumo diferente sem ser tão superficial. Por isso não uso do “é uma adaptação” pra aliviar os problemas dos roteiristas. E sinceramente achei bem estranho a Batalha dos Bastardos ganhar prêmio como melhor roteiro… A direção do episódio é fantástica, isso ninguém pode negar, mas todo o seu desfecho é previsível. O roteiro da season finale, ao meu ver, merecia bem mais indicação que o penúltimo.

    Quando vi o Doran Martell sendo morto daquela maneira esdrúxula no 6×01 eu quase desisti da série (ele não morreu sozinho. Toda a carga dramática no arco do Oberyn morrendo em nome da justiça pela irmã se foi no momento em que sua esposa e filhas mataram o resto de sua família) e, sinceramente, não espero muito da próxima temporada, infelizmente.

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