No ano em que a franquia Star Trek completa 50 anos,  chega ao cinemas Star Trek: Sem Fronteiras (Star Trek: Beyond, no original), o terceiro longa do reboot da série.  

Audaciosamente indo onde nenhum dos dois filmes anteriores jamais estiveram, Sem Fronteiras aposta em uma aventura inédita no universo Star Trek, cujo tom resgata a essência da série  criada em 1966 por Gene Roddenberry. O longa tem cheiro, tem alma de Star Trek… mas não se prende ao peso do cânone como os títulos anteriores do reboot fizeram.

Um dos maiores trunfos de Sem Fronteiras é sua trama simples, porém interessante e bem construída, que garante ao longa um caráter mais episódico, marca registrada da franquia.

O filme começa no terceiro ano da famosa missão de cinco anos da Enterprise no espaço profundo, mais precisamente em seu 996º dia – uma referência a setembro (09) de 1966, data de estreia da série original. Encontramos um capitão Kirk (Chris Pine) imerso no dilema de sair da sombra da memória do pai e descobrir quem de fato quer ser.

Assim como Kirk, toda a tripulação está mais madura, mais entrosada; mas ao mesmo tempo, mais cansada de ver os mesmos rostos, as mesmas paredes e a mesma rotina na vastidão solitária da fronteira final.

Os rumos e os planos da missão mudam quando um pedido de socorro em um uma nebulosa não mapeada leva a tripulação da Enterprise a encontrar o vilão Krall (Idris Elba, irreconhecível, mas sempre competente).

Os trailers já mostravam que a nave seria atacada (então não é spoiler :p), mas toda a sequência de ação do confronto e da tomada da Enterprise é de encher os olhos, uma das melhores de todo o filme.

Sem a nave, a tripulação é dividida em núcleos que precisam se reagrupar. E é nesse momento que vemos como o elenco principal do filme está cada vez mais confortável e seguro em seus papéis. O longa aprofunda as relações entre os membros da Enterprise, e nesse quesito, o destaque está nos diálogos afiados entre Spock (Zachary Quinto) e Dr. “Bones” McCoy (Kalr Urban), uma das mais interessantes amizades de Star Trek, e que ainda não havia sido trabalhada nos filmes do reboot.

A divisão em diferentes núcleos narrativos também permite que outros personagens como Hikaru Sulu ( John Cho), Pavel Chekov (Anton Yelchin) e Montgomery Scott  (Simon Pegg) ganhem maior destaque e sejam melhor abordados ao longo do filme. A tenente Uhura (Zoe Zaldanha)no entanto, talvez seja – infelizmente – quem recebe menos tempo de tela do que merecia.

Sem Fronteiras nos apresenta ainda uma nova personagem importante, a guerreira Jaylah (Sofia Boutella, a Gazelle de Kingsman). Uma adição interessante à trama, a alienígena cruza o caminho da tripulação da Enterprise de forma bastante natural e sua presença possui o tempo e destaque exato na história. O filme aliás, nos deixa com vontade de ver Jaylah em outras aventuras ao lado da Federação.

Vindo da franquia Velozes e Furiosos, o diretor Justin Lin era visto com certa desconfiança ao assumir o lugar de J.J. Abrams, que zerou a vida ao dirigir Star Trek e Star Wars, que deixou a direção da franquia para trabalhar em Star Wars, mas que segue como produtor de Sem Fronteiras.

Mas ao contrário do que muitos fãs de Star Trek poderiam temer, o filme está muito longe de um “velozes e furiosos no espaço”. Existem sim muitas cenas de ação, mas elas são, inclusive, até menos frequentes do que em Star Trek (2009) e Além da Escuridão: Star Trek (2013).

Em certo momento, Justin Lin exagera um pouco em algumas câmeras que podem parecer frenéticas demais, mas que acabam compensadas pela montagem final. Seguindo muito do que J.J. já havia estabecido e acrescentando o frescor de novos alguns ângulos e abordagens, a direção deixa que o grande cerne do filme prevaleça: o roteiro.

Ah, o roteiro de Star Trek: Sem Fronteiras… Escrita por pro Simon Pegg, que interpreta o engenheiro Scotty e por Doug Jung, que aparece no filme como o marido de Sulu, a narrativa  é coesa, sem ser didática demais e lógica sem tornar-se maçante. Uma história que é desenvolvida de forma orgânica e bem amarrada. O roteito ainda apreveita a experiência de Pegg na comédia para fazer com que esse seja o mais divertido dos filmes da trilogia, dotado de um humor que não vem de piadas inseridas para cumprir uma cota, mas de diálogos e situações bem escritas e atuações competentes.

Por fim, Sem Fronteiras presta homenagem ao eterno Spock, Leonard Nimoy, falecido em 2015. São cenas singelas e emocionantes, que além de contribuírem para o desenvolvimento da narrativa,  aquecem o coraçãozinho do mais vulcano dos fãs.

Quem também é homenageado é o jovem ator Anton Yelchin, que morreu em um acidente uma mês antes do lançamento do filme. O viés cômico e maior tempo de tela de seu personagem Chekov neste filme trazem aperto na garganta a cada vez que ouvimos seu impagável sotaque russo.

Em um ano em que alguns blockbusters decepcionaram por se julgarem mais grandiosos e complexos do que de fato eram, Sem Fronteiras traz o frescor de uma história capaz de agradar tanto quem procura entretenimento, quanto os fãs de uma das mais importantes séries de ficção científica de todos os tempos.

Aos 50, a franquia segue com seu audacioso espírito moderno e aventuresco. Vida longa e próspera a Star Trek.

 

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