“Embora eu tenha gasto uma excessiva quantidade de tempo escrevendo os livros da série nos 33 anos entre 1970 e 2003, relativamente poucas pessoas os leram. Aqueles que o fizeram, no entanto, ficaram consideravelmente apaixonados, e eu mesmo me senti consideravelmente assim (…) Escrevi uma quantidade de romances e contos suficiente para preencher um sistema solar da imaginação, mas a história de Roland é meu Júpiter — um planeta que transforma todos os outros em anões (pelo menos de minha própria perspectiva), um lugar de atmosfera estranha, paisagem louca e selvagem força gravitacional”.

É dessa forma que Stephen King define a relação entre a criação e a repercussão de A Torre Negra, sua obra mais longa e ambiciosa.

Mas afinal, o que é A Torre Negra, essa saga que o próprio mestre do terror considera sua obra-prima?

É uma saga difícil de ser explicada (ouvi isso quando me indicaram os livros, e devo ter dito algo parecido nas vezes em que repassei a indicação), o que não quer dizer que seja difícil de ser lida e amada.

É também o tipo de história que talvez não seja tão conhecida por ainda não ter ganhado nenhuma adaptação. O que está prestes a mudar aliás, já que depois de muitos anos de especulações e projetos que não saíram do papel, a obra finalmente vai para o cinema em agosto de 2017, com um filme que tem Idris Elba e Matthew McConaughey nos papéis de Roland Deschain e o Homem de Preto, respectivamente.

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Faroeste, pós apocalipse e Nova York

Torre Negra é uma série de fantasia inspirada no poema épico de Robert Browning “Childe Roland a Torre Negra chegou” e composta por sete volumes: O pistoleiro (1982), A escolha dos três (1987), As terras devastadas (1991), Mago e vidro (1997), Lobos de Calla(2003), Canção de Susanna (2004) e A Torre Negra (2004). A saga segue os moldes tolkianos, no sentido de relatar uma busca, nesse caso, a busca do pistoleiro Roland Deschain pela torre do título, o centro de todo nexo e espaço.

Entre as inspirações e referências da série estão as lendas arturianas. Os pistoleiros, dos quais Roland de Gilead é o último remanescente, são uma espécie de Cavaleiros da Távola Redonda. Trocando, é claro, as espadas e escudos por dois revólveres de cabos de sândalo, passados de pai para filho.

Os filmes de faroeste também inspiraram Stephen King na criação de sua história. Roland Deschain é o tipo de cara durão, absurdamente durão, que poderia ter saído de um típico western americano (onde certamente seria interpretado por Clint Eastwood). Só que não é pelo Velho Oeste que o pistoleiro caminha. Último de sua linhagem e de seu tempo, Roland está condenado a vagar por um mundo pós-apocalíptico, o Mundo Médio, onde as noções de tempo e de espaço já não fazem mais sentido, um mundo que seguiu adiante.

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“O homem de preto fugia pelo deserto e o pistoleiro ia atrás.”

No caminho do pistoleiro, somos apresentados a termos como o Ka, algo parecido com destino, talvez um pouco mais forte e implacável. A missão de Roland, o seu Ka, é encontrar a Torre Negra, a última esperança de reconstrução desse universo despedaçado.

A tal torre parece ser uma coisa abstrata, difícil de ser imaginada ou compreendida. Será que ela existe? É uma estrutura física ou elemento metafórico? Dúvidas que persistem ao longo dos livros, mas que Stephen King, através da determinação de Roland, faz com que o leitor, apesar das incertezas, passe a acreditar que tudo depende da Torre Negra, e que ela precisa manter-se em pé.

A realidade é tênue no universo do pistoleiro de Gilead, muitas portas se abrem do Mundo Médio para outros mundos, inclusive para o nosso. E é a partir dessas viagens entre diferentes realidades que a saga se torna ainda mais complexa e cheia de referências à cultura contemporânea. Referências que vão desde robôs e aparelhos eletrônicos a músicas do Elton John (!). E é também a partir das passagens entre mundos que Roland encontra seu Ka-tet (aqueles unidos pelo destino). Companheiros de viagem saídos de diferentes versões de Nova York: um viciado em heroína, uma negra paraplégica e esquizofrênica e um garoto com sérios problemas familiares. Além de um bicho que é uma mistura de cachorro e guaxinim… (ok, eu avisei que a coisa era complexa).

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“Somos ka-tet, somo um feito de muitos.”

Mas não nos esqueçamos da segunda parte da afirmação inicial de King.  A série é apaixonante e envolvente, e a espera daqueles que a acompanharam desde o início foi tensa. Passavam-se anos entre a publicação de um livro e outro. Enquanto isso, choviam cartas dos leitores e nem todas eram apenas fruto da impaciência. Em 1992, o escritor recebeu uma carta de uma senhora de 76 anos com um diagnóstico de tumor no cérebro, que lhe pedia: “poderia me dizer como a história da Torre Negra termina, pelo menos se Roland e seu ‘Ka-tet’ chegam realmente à Torre Negra? Prometo não dizer uma palavra a uma alma e o senhor estará tornando uma moribunda muito feliz”. King diz que não soube o que responder, pois não sabia ainda qual rumo sua história iria tomar.

No fim das contas, quem quase morreu nesse meio tempo foi o próprio Stephen King. No dia 19 de junho de 1999 o escritor foi atropelado por uma van enquanto caminhava nos arredores de sua casa, no Maine.  O escritor por pouco não chegou à “clareira no fim do caminho” e a Torre Negra quase permaneceu inacabada.

King, que chegou a ser dado como morto por alguns jornais locais, teve danos pulmonares, fraturas múltiplas na perna direita, fratura no quadril, lacerações na cabeça e uma firme convicção: era preciso terminar a historia de Roland e sua torre. Os três últimos volumes da saga foram escritos e publicados num intervalo de tempo de apenas três anos. E a experiência do acidente de King está presente de maneira bastante contundente e literal neles.  Sim, Stephen King aparece – como Stephen King – na história.

Outro elemento que torna evidente a importância da Torre Negra para o escritor é a relação com suas outras obras. Ao longo da saga é possível encontrar referências e elementos de outros livros do autor. Um personagem de a Hora do Vampiro, por exemplo, participa ativamente da história nos últimos três volumes da saga.

O retorno ao Mundo Médio

Embora a história da Torre Negra tenha encontrado seu desfecho no volume sete, restaram muitas pontas soltas, principalmente no que diz respeito ao passado do pistoleiro. Algumas dessas lacunas foram preenchidas por HQs lançadas pela Marvel a partir de 2007. E mais recentemente por um novo livro da série. O Vento pela Fechadura foi lançado em 2012 e é classificado por Stephen king como “a Torre Negra 4,5”, já que se encaixa entre Mago e Vidro e Lobos de Calla.

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“O vento está do outro lado da fechadura. E aqui, de onde ele vem? De toda eternidade. E da Torre Negra.”

Trata-se de uma obra adicional, que interfere muito pouco no caminho em busca da Torre, mas que é tão interessante quanto as outras.  É um livro sobre contar histórias, e “uma pessoa jamais fica velha demais para ouvir histórias. Homem e menino, menina e mulher. Jamais …”, como nos diz o próprio Roland.

Também é um livro sobre lembranças. As lembranças da juventude de Roland, contadas pelo pistoleiro ao Ka-tet durante uma tempestade. Recordações do seu doloroso passado e da infância em Gilead, ouvindo as histórias que sua mãe contava. Além disso, O Vento pela Fechadura mexe com as lembranças dos leitores d’A Torre Negra, que têm a chance de matar a saudade de seus personagens e de seus mundos, já que sensação de nostalgia ao encontrar o “Ka-tet do 19” é palpável.

O que fica ainda mais claro com a publicação de o Vento pela Fechadura é que Stephen King vive tentado a escrever mais sobre o Mundo Médio. Peças soltas não faltam nesse quebra-cabeça, e eu não duvido que ele paneja escrever novos relatos do misterioso passado de Roland, por exemplo. Porque mesmo que o mundo tenha seguido adiante, os leitores da Torre Negra sabem (e os novos leitores vão descobrir) que muitas coisas são cíclicas, afinal, “o Ka é uma roda” e está sempre girando.

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“Vá então. Há muitos mundos além deste.”

*Texto publicado originalmente no site Literatortura.

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